Sobre o Medo – Sessão 01

18 abr

Lendo o artigo incrível do roteirista, guionista, português João Nunes sobre a procrastinação, ficou muito claro e óbvio para mim porque ás vezes é tão difícil abrir o Final Draft ou o Pages. Preguiça? Não, medo meus caros, medo. E o João não apenas levanta a questão, como bota o dedo na ferida.

“Medo de falhar, medo de ficar aquém do esperado, medo de desiludir – a nós e aos outros” disse João.

Sobre falhar, todos nós iremos, cedo ou tarde. Ou cedo e tarde também. Vai acontecer e já aconteceu com todo mundo. Você vai ter chance de corrigir seu erro e mostrar que você é um bom roteirista? Nem sempre, sejamos sinceros, quase nunca na verdade. Não estou falando de que nunca mais você vai trabalhar, mas o mercado é exigente e existe muitos roteiristas disponíveis. Tenho uma falha horrenda, vinha de um trabalho que deu um problema imenso e fiquei traumatizada com o gênero, achei que não era capaz de escrever. E me apareceu esse outro logo depois, o mesmo gênero. Eu falhei e o trauma foi elevado a décima potência. Foi uma falha épica, tenho vergonha daquelas páginas que escrevi. Dia desses encontrei uma das pessoas envolvidas no trabalho em uma rede social e ele não lembrava direito e me reapresentei. Conversámos bem até essa hora. Depois que eu relembrei meu fracasso homérico, ficamos sem graça, claro, e a conversa morreu. Ele vai me chamar para outra coisa? Claro que não. Paciência, acontece. Ás vezes você e o diretor ou produtor não estão afinados, ás vezes ninguém sabe o que quer na verdade ou você erra mesmo. Não vou usar o clichê de que falhas são essencias porque só aprendemos com elas. Não sei vocês, mas eu aprendo bem mais com as séries, filmes e livros. Pode ser que você não está pronto, simples. Precisa de mais estudo e de vivência. É engraçado eu falar em vivência porque sou jovem, tenho 28 anos e 3 e meio de carreira. Carreira no drama? 1 ano e meio. Meu, só um ano e meio. Agora consigo enxergar e entender isso. Ano passado, sofria com um projeto. Queria que ele fosse tão bom quanto Sopranos e Mad Men. Bati a cabeça por meses até que um dia assistindo aos extras da primeira temporada de Sopranos, entendi que  não tenho a vivência e o respaldo do David Chase. Nem a do Matthew Weiner, que alias, levou anos de nãos com Mad Men  atê vende-lo e ser premiado, merecidamente, e tudo mais. Depois desse insight, ou de cair na realidade, o trabalho melhorou imensamente. Não o terminei ainda, mas isso é assunto para outro post, ou melhor, sessão.

Ficar aquém do esperado, tema fácil e que vou falar em uma linha. Se você esta esperando tapinhas nas costas, confetes, congratulações e ser amado, acho melhor escolher outra função no audiovisual. Sem mais.

Quanto a desiludir e aos outros, tente não fazer isso! Simples? Não. E aqui acho que entra um pouco do que eu falei sobre reconhecer que não está pronto. Não estar pronto ainda. Se você se julga abaixo das expectativas, corra atrás, pesquise, estude, escalete coisas parecidas com o seu trabalho até morrer. Agora, quem disse que o outro tem essa real expectativa sobre você? Você e o seu ego, é claro. Acabei de dizer que queria criar um Sopranos misturado com Mad Men. Quer dizer, a humildade passou longe aí, queria fazer uma obra prima e me julgava capaz quando comecei. Menos, bem menos. Também não é que você vai fazer qualquer coisa só porque não é um gênio. Aliás, alguém ainda quer ser gênio? Mesmo? Preocupe-se em fazer o seu melhor e não o melhor de quem quer que seja. Estou muito sábia e cagando regra sobre isso quando  nesse momento estou com um projeto incrível e uma oportunidade que todos os roteiristas que conheço arrancariam um braço para tê-la e não escrevo o que é preciso porque não quero decepcionar a pessoa que me propôs. Casa de ferreiro, já sabem. Agora você foi lá, fez o seu melhor e mesmo assim estão exigindo mais e cada vez mais e você não quer decepcionar, isso tem um nome: vida. Não sabe trabalhar sobre pressão? Você vai sofrer muito, ter ataques de nervos e quem sabe até enlouquecer.

Decepcionar a si mesmo, se você tem um ego como o da média, lá no céu, vai acontecer e muito. Passei por isso, me intitulei incapaz de escrever, uma verdadeira fraude, uma merda mesmo. Teve dias que nem ligar o notebook e abrir o Final Draft eu tinha coragem. O motivo era interno, a famosa crise criativa. Me curei porque um trabalho muito bom caiu no meu colo. Caiu mesmo porque nessa época eu nem tinha vontade de ir atrás de nada. Terapia de choque. Parei com o ” aí eu não sou talentosa, eu não sei escrever”. Talento? Ok, 10%. E eu tenho esses 10%. Agora o resto, pare de choramingar e escreva. Quanto mais você escreve melhor você fica, não tem outro modo. Vão sair coisa horríveis? Claro, mas depois melhoram.

O João não falou sobre um medo que eu vejo em muitos amigos meus. E em mim, claro. Medo de que as coisas dêem certo. A pior coisa que pode acontecer a um sonhador, desses bem românticos, é que os sonhos se realizem. Porque daí ele vê que o sonho não é tão perfeito, que o mundo que ele tanto queria não é cor de rosa. E como lidar com isso? E também o que ele sonhará agora? Era isso? Sim, era isso. É foda. Roteirista não é sonho, é vida real, é um trabalho e ás vezes é muito duro. Mas vale cada noite sem dormir, lhes garanto. Aos que estão na transição de uma profissão para o roteiro, percam as ilusões e trabalhem mais no que vocês realmente querem. Dediquem-se ao invés de ficarem lamentando sobre a horrível sorte de ter um trabalho que não gostam. Eu sei que é difícil abrir mão do status quo, mas se você quer mesmo, depende de você. Você quer isso mesmo? Tem certeza? Então vai, filho! E mais uma vez, acabe com suas ilusões. Sério isso.

Não sei se terminei o texto falando sobre as mesmas coisas do começo e não vou editá-lo. São pensamentos crus que assolam meus amigos roteiristas e a mim. Não sei se terá sentido para quem ler. Alguém vai ler? Quanta pretensão. Será uma sessão nova nesse blog e não me preocuparei com nexo em nada. Falando em medo, levei 3 meses para ter coragem de botar esse blog no ar. Medo de falar besteira sobre roteiro e me queimar no mercado, medo de que as pessoas não me achassem tão inteligente assim, medo de não saber escrever um post, afinal é totalmente diferente de roteiro. Mas o enfrentei. E já que toquei no assunto, vou criar vergonha na cara e mandar o material que me pediram.

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