O maior vilão de todos os tempos

4 jun

Dizem as más línguas que Carminha foi trocada por um liquidificador, foi prostituída e pagou por um crime que mãe Lucinda comenteu. E ela realmente ama o filho, o Jorginho. Os vilões também amam, os vilões também sofrem. Isso é muito rico na criação, torna o personagem muito mais próximo de nós, humanos. Ás vezes tão próximos, que chegam a ser mais humanos que muita gente com RG e CPF por aí.

Humanizar um vilão não é fácil. Na grande maioria das vezes é usado o artifício da justificativa. Ou ele tem um trauma, ou ele tem transtornos psíquicos, enfim, arruma-se algo que faz com que o público entenda o motivo de tanta maldade e sinta pena em alguns casos. Para mim, o grande lance não é justificar, é mostrar que aquela pessoa, personagem no caso, é má e pronto, só que ele não é mau o tempo inteiro, ele é pode ser gentil, pode amar, pode ser alegre.

Por isso escolhi falar desse filme, que para mim é brilhante nisso. E corajoso, mas muito corajoso. Antes de falar qual é, já vou logo dizendo que não sou nazista e abomino Hitler tanto quanto todo mundo. Não disse que era corajoso? Eu nem comecei o texto e já estou me justificando antes de ser chamada de nazi. Agora imagina o nível de coragem que um alemão teve que ter para humanizar Hitler em um filme?

Estou falando de Der Untergang, traduzido como A Queda! As últimas horas de Hitler dirigido por Oliver Hirschbiegel e escrito por Bernd Eichinger, indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro de 2005 e ao Goya como Melhor Filme Europeu de 2004.

Posso citar sem pensar nem por 10 minutos, pelos menos uns 15 filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. E aqui uma dicona: Gente, já deu o assunto, Bastardos Inglórios o encerrou para sempre. Sério mesmo.

De todos os filmes que tratam desse assunto, nenhum jamais mostrou a visão dos nazistas. Quem seria louco o bastante para isso? Quem investiria em um filme desses? Pois é, Bernd Eichinger foi louco o bastante e investiu. O filme é baseado no livro Inside Hitler’s Bunker: The last days of Third Reich, de Joachin Fest, historiador e escritor. Com certeza bebeu muito também no documentário Im totel Winkel e no livro Bis zur Ietzten Studen.Os três tem em comum uma figura, Traudl Junge, a secretária pessoal de Hitler de 1942 até o último momento de sua vida. Traudl faleceu em 2002, ou seja, as informações para todo esse material foi dada por ela mesma, peça histórica.

Falei lá em cima sobre humanizar um vilão. Acho que humanizar não é exatamente a palavra para descrever a figura de Hitler nesse filme, mas mostrar um lado que só os que conviveram com a pessoa Adolf poderiam conhecer. A pessoa Adolf eu acabei de escrever. Dá um puta medo escrever uma coisa dessas. Só para relembrar, não sou nazista, ok? Hitler está no nosso imaginário como o demônio encarnado. Na verdade acho que muito pior foi Goebbels, mas deixa para lá. Voltando, Hitler é para o mundo o maior vilão de todos os tempos, aquele que não tinha um traço de humanidade. E aí logo na primeira cena, o ditador é apresentado como um homem muito calmo, de fala mansa, gentil, simpático, paciente e compreensivo. Brilhante, logo percebe-se o diferencial do filme. Isso é em 1942, no momento em que o Fuhrer escolhe uma secretária, Traudl. A segunda cena, 1945, mostra um Hitler enlouquecido, nervoso, querendo enforcar soldados por Berlin estar sendo bombardeada.

O roteiro brinca com esse contraste o tempo inteiro, Hitler humano vs. Hitler que conhecemos. É fantástico porque são pequenas sutilezas. Você o vê em uma cena completamente desesperado e com todas as suas esperanças e sonhos destruídos e em outra como arrombos de arrogância e crueldade, condenando o povo alemão a ficar sem defesa bélica, visto que demonstrou-se fraco e então merece morrer. São muitas nuances em um único personagem, delírios megalomaníacos, crueldade em excesso, gentileza, a depressão da derrota, carinho e o choro. Humanidade ao maior vilão de todos os tempos. O roteiro usa isso lindamente, nunca vi nada igual em outro personagem. Mostra-se também uma coisa que o Fuhrer morria de medo que descobrissem, ele sofria de mal de Parkinson, então em várias cenas dá para vê-lo com um dos braços escondidos nas costas e tremendo. Era o que ele fazia para disfarçar. Ou tentar

Bruno Ganz, ator suiço que interpretou o ditador, teve um desempenho absurdo, merecia todos os prêmios de melhor ator oferecidos no mundo. Isso não aconteceu, é claro.

O final não é spoiler para ninguém. Hitler, derrotado e traído pelo seu alto comando militar, comente suicídio junto com sua esposa Eva Braun em 30. Em uma cena inclusive aparece ele e Eva conversando com Traudl e outra empregada calmamente sobre o suicídio, o modo como seria com a maior naturalidade e calma do mundo. É impressionante. Hitler sabia da derrota e o que aconteceria a ele quando capturado, então decidiu ele mesmo antecipar o inevitável, a morte iminente. Sua preocupação com o fim e a chegada dos Aliados ao Fuhrerbunker era tão grande, que ele deu ordens para que seu corpo fosse incinerado, com medo que fosse sei lá, retalhado e os pedaços exibidos para que servisse de exemplo. Enfim, não sei, vai saber o que se passava naquela mente. A ordem foi cumprida e provavelmente por isso os boatos, não havia corpo para comprovar, de que ele não teria morrido e sim fugido para a Argentina. Oi?!

Em estrutura, o roteiro infelizmente peca em várias coisas. Por ser baseado totalmente na realidade, a chance de que virasse um doc-drama era imensa. E seria se não tivessem colocado a história do menino soldado e do médico nazista arrependido. Só que o problema é que isso ficou muito evidente. Claramente percebe-se que essas histórias tem essa única função, fazer com que A Queda seja um filme de ficção. Mas não cola, as histórias estão muito descoladas do núcleo central e a força do personagem Hitler é imensa, não dá para ignorá-lo e sentir-se sensibilizado pelo encontro do menino e do pai. Não rolou.

Não sei se posso chamar isso de erro ou se eu de queria ver mais essa história. Goebbels era o segundo homem no comando do Terceiro Reich. Era o homem de maior confiança de Hitler, um não desgrudava do outro. Até o final do segundo ato, o Ministro da Propaganda passa totalmente despercebido pelo filme, chega a ser irrelevante. Sua importância nessa histórias só vem com a chegada de sua esposa e filhos ao Fuhrerbunker e o desfecho bizarro da família. Não é spoiler, a história esta aí, é só pesquisar. Goebbels e Magda, sua esposa, eram pais e 5 lindas, saudáveis e alegres crianças. Como permanecer fora da proteção do bunker era perigoso demais, o pai da família a leva para lá. Com a derrota do nazismo dada como certa, eis que a senhora Goebbels, Magda, decide, assim, que seus filhos não viveram em um mundo em que não exista o nazismo e ela mesmo os mata, um a um, com veneno enquanto eles dormem. Sim, todas as crianças mortas pela mãe louca e fanática. E a frase que eu usei sobre viverem em mundo onde não exista o nazismo é dita pela própria Magda, que para Hitler era a mãe mais corajosa do Terceiro Reich. Não existem nem termos ou palavras para avaliar o nível de loucura dessas pessoas. Isso é o fanatismo. Cuidado com ele, qualquer que seja a causa. Ela tinha escolha, os filhos poderiam facilmente ter as identidades trocadas e serem levados para viver longe da Europa, afinal eram inocentes, eram crianças. Mas não, ela escolheu matar os filhos. O fim desse senhora e de seu esposo, o homem que manipulou e fez lavagem cerebral em uma nação inteira, foi o suicídio também. Marido atirou em esposa e depois em si mesmo. E esse dois personagens só aparecem realmente no terceiro ato. Erro no roteiro, mas ok, o foco é outro.

Eu usei o termo humanizar o vilão e acredito que muita gente possa interpretá-lo mal. Humanizar não significa tornar o personagem malvado em bonzinho ou fazer com que sintamos pena dela. Significa dar tridimensionalidade a ele, não deixá-lo plano e com apenas uma característica, como a maldade ou mesmo a bondade. Vide os mocinhos e mocinhas chatérrimos que ganham a antipatia por serem bonzinhos demais. E sem dúvida A Queda! Foi o filme mais ousado nesse sentido por ter pegado o maior vilão do mundo e mostrá-lo entre rompantes de delírio e de crueldade, gentil com os que o cercavam. Mais uma vez, brilhante. Mais uma vez, não sou nazista.

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