Vamos falar dela e de nós

24 jun

Ela, a novíssima classe média brasileira, a emergente classe C. Nós, roteirista.

Na última quinta feira assisti a um debate com o sociólogo e professor Renato Ortiz a respeito do assunto. Revendo as anotações que fiz, dados que demonstram o porquê dessa ascensão, sim tem muito a ver com a política dos últimos 3 governos. Bom, não é isso que interessa, ao menos não nesse texto. O fato é que a nova classe média é composta por mais de 58% da população. Essa nova parcela vem da ascensão da classe D e E. Okay,  nenhuma grande novidade, mas acho necessário deixar claro caso alguém não saiba, tipo se um marciano ler meu post.

Esse negócio de distribuição das classe não é tão simples quanto os dados que valem nessa estatística. Sigo a escola Pierre Bourdier, acredito que a a classe social a que o indivíduo pertence tem mais a ver com o seu capital cultural. E isso fellas, não depende de renda. Claro, as classes são móveis, não estamos mais no feudalismo, não é verdade? Qualquer um pode galgar um lugar um pouco mais ensolarado na hora que bem entender.

Tá. Muito bom, muito bonito. E o que isso tem a ver? É necessário falar que a TV busca agradar a essa parcela imensa da população, porque, claro, sendo a maioria, a classe C tem o poder? Quando eu me referir a poder, entendam dinheiro, poder de consumo. Tem algum problema nisso? Claro que não! Isso é bussiness, fellas. Por enquanto serei bem específica sobre a TV. Qual é o maior produto da TV brasileira? Pois é, claro que as novelas são o principal alvo para fidelizar esse público. Cheias de Charme e Avenida Brasi, horário nobre com  média de 43 pontos no Ibope, no ar na Rede Globo e anteriormente Vidas em Jogo na Record.

Estou óbvia, eu sei, mas é necessário para que eu chegue onde quero chegar. É a tendência do mercado e essa onda está só começando.

Bem, estou enrolando muito já. Vejo uma onda de roteiristas, principalmente novos, muito empolgados com isso. O que é bom, não é? Estão se preparando para trabalhar, ótimo. Só que percebo que uma coisa não está bem clara. Escrever para a nova classe C, que sim, tem um nível acadêmico e cultural inferior do que a antiga classe média, não significa baixar o nível do escritor. Falo baixar o nível no bom sentido, se é que é possível, bem, vou dar um exemplo para deixar mais claro.

Avenida Brasil passa-se em um lixão. Os ~ricos~ da novela são a classe C emergente, pessoas que pertenciam a classe D ou E que enriqueceram financeiramente, mas mantém suas raízes, gostando de pagode, churrascos na laje, enfim, tudo que a antiga classe média execra. Esse é o cenário de Avenida Brasil. A história? Personagens tridimensionais, trama rápida, uma mistura de série com novela. Mudou o cenário, talvez as palavras do diálogo, a trilha sonora. E só. Inclusive o João Emanuel Carneiro se fosse comparado a algum autor brasileiro, talvez pudesse ser ao Lauro César Muniz, pela complexidade de personagens e narrativa diferenciada. Não a Janete Clair, a lenda, que escrevia personagens maniqueístas.

Me parece muitas vezes que o escrever para a nova classe C é entendido como não precisar ler e assistir a coisas consideradas difíceis. Porque vou assistir Fellini se meu público quer American Pie? Porque eu preciso evoluir culturalmente  se as minhas histórias serão voltadas a um público que não me entenderá?

Usar um cenário popular, ter uma trilha sonora com muito pagode não significa ser simples. Significa adequar o seu produto ao mercado, ao que as pessoa querem ver. Todo mundo quer se ver na TV, não é isso? Agora, ser simples nas tramas? Não se submeter a experiências desafiadoras culturalmente?  Um roteirista?

Teve um capítulo de Avenida Brasil em que o Tufão estava lendo Kafka. Vocês acham que o João Emanuel Carneiro colocou isso em cena porque ele jogou no google, escritor e apareceu Kafka e ele achou que seria legal? Não fellas, ele colocou isso porque provavelmente Kafka seja uma referência que ele usa para escrever Avenida Brasil. Kafka para a nova classe C. Deu para entender agora?

Espero que sim. De verdade, fellas roteiristas.

 

 

 

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7 Respostas to “Vamos falar dela e de nós”

  1. Tatiane Fonseca 24 de junho de 2012 às 10:48 pm #

    Pode até ser que Carneiro tenha utilizado algo de Kafka na escrita de Avenida Brasil. Pode ser que ele queira arriscar-se levando à conhecimento público – da classe C, para ser mais precisa, por meio do personagem Tufão o livro do autor. Certamente, essa mesma classe fará o processo de “pesquisa Google” afim de encontrar maiores referências do escritor estrangeiro. A questão é, se tais resultados obtidos farão com que, efetivamente, será dada à leitura de Kafka pela classe C.

    • Tatiane de Mello 24 de junho de 2012 às 11:57 pm #

      Oi Tatiane, tudo bem? Eu quis pegar bem na questão das nossas referências como escritores. Claro que o grande público não vai reconhecer, mas as acho fundamentais.
      Quanto a segunda questão, nem eu mesmo tinha a leitura de Kafka na primeira vez que li como tenho hoje, então de qualquer modo, mesmo que as pessoas entendam superficialmente, acho válido que de repente elas comprem na banquinha Carta ao Pai por menos de 15 reais e leiam no ônibus por influência de um personagem de novela.
      Obrigada pela visita.

  2. Samuel de Castro 25 de junho de 2012 às 5:30 am #

    Pois é. Concordo com algumas de suas palavras. Adaptar texto, história, para o mercado atual…Adaptar é a palavra.
    Roteiristas com o desejo de escrever para a Tv, tem que estar atento, é uma nova realidade, é importante por que realmente o público e sua maioria quer se identificar com as histórias na tv, e etc. Agora, para os novos roteiristas, é interessante sim manter suas raízes, e continuar buscando inspiração em seus autores, escritores preferidos, aqueles das antigas entende? Que escrevia para uma classe diferente, com questões intelectuais mas profundas, e hoje seremos os responsáveis em adaptar suas idéias para algo mas popular…Isso não quer dizer que seja o mesmo texto, apenas partiu de uma mesma ideia ou fonte, deu para entender? Talvez foi isso que João Emanuel Carneiro quis fazer com Kafka. Enfim, talvez Eu tenha dito besteiras, É por que faço parte da nova classe C e me considero um novo roteirista…ou vice versa.

    Bjsss!

    • Tatiane de Mello 26 de junho de 2012 às 4:36 am #

      Concordo que o JEC fez isso. Só eu não acredito que existam questões assim tão diferentes da classe C nova para a antiga, porque são pessoas, o que aflige a um, aflige ao outro. E na classificação do Bourdieu e na minha, vc não é a nova classe C, só para constar.

  3. Fernando Borges 29 de junho de 2012 às 10:05 pm #

    Acredito que a “determinação” da classe social a qual o indivíduo pertence está mais relacionada ao capital cultural do que com a renda em si, então concordo com você. Por mais que padrões de vida e capacidade de consumo sejam diferentes, indivíduos de classes distantes podem se relacionar de forma efetiva se um deles for capaz de dominar o código do outro. Mas reconheço que pessoas com renda menor em geral possuem gostos/interesses que nem sempre são 100% compatíveis com o que é produzido para as camadas com poder aquisitivo maior. Mas sobre a questão das novelas, não sei… Eu nunca gostei, nunca me interesse e fico completamente entediado assistindo. Mas vejo que o público das novelas se estende por todas as estratificações sociais, então isso deve ter um significado.

    A professora Heloisa Buarque de Almeida, do Departamento de Antropologia da USP, fez uns trabalhos muito interessantes sobre esse tema, especialmente no que se trata da novela na vida da população. Passou, se não me engano, um ano estudando isso. A tese de doutoramento dela foi ” “Muitas mais coisas”: telenovela, consumo e gênero” e acho que vale a pena ser lido. Eu não li, mas ela foi minha professora e também assisti uma palestra dela sobre isso e achei fascinante.

    Ah, dei uma procurada e tem a tese inteira dela na internet, em pdf. Tá aqui um resumo dos trabalhos da professora: http://antropologiausp.blogspot.com.br/2010/10/heloisa-buarque-de-almeida.html

    • Tatiane de Mello 30 de junho de 2012 às 2:15 am #

      Realmente, não é gratuito. E a classe C como público alvo começou com a novela, mas não vai parar por aí, afetará a todas as emissoras, abertas e fechadas, e ao cinema. Acredito que e única dramaturgia que ficará intacta será o teatro.
      E como texto e comentário, excelente Fernando, está de parabéns.
      Vou ver o trabalho da professora Heloisa Buarque de Almeida, obrigada pelo link.

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  1. E aí, vai uma pipoca? « I know it was you Fredo. You broke my heart - 15 de julho de 2012

    […] um texto há algumas semanas falando sobre a nova classe C e como as emissoras de TV estão se virando para […]

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