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Não vou ler o seu fucking* roteiro.

21 jun

Venho publicando algumas traduções em uma vibe de autoajuda ultimamente. Essa vibe acabou, voltamos a programação normal. Ainda bem, para onde iria minha reputação? Para uma nuvem de algodão doce com um Ursinho Carinhoso vomitando arco-íris???!!! Jesus fucking Christ!!!

Tradução de um artigo do The Village Voice Blog. Para os fortes.

Não vou ler o seu fucking roteiro

Sabemos que você está trabalhando duro no seu roteiro, mas antes de levá-lo para uma avaliação profissional, você precisa ler esse texto do roteirista de A História da Violência, Josh Olson.

Eu não vou ler o seu fucking roteiro

É simples, não? “Eu não vou ler o seu fucking roteiro.” O que não está claro sobre isso? Não é nada pessoal, nada complicado. Simplesmente não tenho interesse eu ler o seu fucking roteiro. Nenhum.

Se você acha isso injusto, então vamos fazer um trato. Você não me pede para ler o seu fucking roteiro e eu não te peço para lavar o meu fucking carro, ou tirar uma fucking foto minha, ou me representar em um fucking tribunal, ou operar a minha fucking vesícula, ou qualquer outra fucking coisa que você faça para viver.

Você é uma pessoa muito amável. Esse tempo que passamos juntos com certeza foi muito agradável para nós dois. Realmente gostei daquela conversa em que falávamos sobre estrutura e tema, sobre como Sergio Leone é o maior diretor de todos. Sim, temos as mesmas opiniões, e sim, desejo a você toda a sorte do mundo em seus projetos e eu ficaria imensamente feliz em saber que você vendeu seu roteiro e ele se tornou o melhor filme desde O Poderoso Chefão Parte II.

Mas, eu não vou ler o seu fucking roteiro.

Nesse momento você já deve ter ido embora, firme na convicção de que eu sou um filho da puta. Mas se você está interessado em crescer como ser humano e reconhecer que você é que é o filho da puta nessa situação, por favor, continue a ler.

Sim, eu te chamei de filho da puta. Você criou essa situação. Você me colocou na situação de fazer o que você quer ou de ser um filho da puta. E isso, meu amigo, é a definição de um movimento filho da puta.

Fui colocado recentemente nessa situação por um cara.

Duvido que tivessemos trocado mais de cem palavras. Ele estava namorando alguém conhecido e me encurralou na hora certa e no momento certo, e me pediu para ler uma sinopse de duas páginas que estava escrevendo no último ano. Ia inscrever a sinopse em algum concurso ou edital e queria antes uma opinião profissional.

Agora tenho uma resposta padrão para esse tipo de pessoa e situação. E é uma verdade: Tenho duas pilhas de roteiros ao lado da minha cama. Uma de roteiros de bons amigos e a outra de roteiros, sinopses e projetos que tenho que ler para o trabalho. Cada vez que pego o roteiro de um amigo para ler, me sinto culpado por não estar trabalhando. Cada vez que pego um roteiro de trabalho, sinto me culpado por não estar lendo o roteiro de um amigo. Se eu ignorar as duas pilhas e ler o seu, me sentiria uma pessoa horrível.

A maioria das pessoas entende isso. Mas ás vezes você esta em uma situação em que a culpa acaba sendo muito grande, ou é alguém mais ou menos próximo ou praticamente obrigam você a isso. e fica bem difícil escapar sem parecer rude. Então, digo que vou ler. Mas coloco o roteiro em baixo dos outros. Eles sempre vão para lá e ninguém aceita que seu roteiro fique em último lugar para que outra pessoa o leia.

Mas que inferno, são só duas páginas, quanto tempo pode levar para ler duas páginas?

Semanas, é a minha resposta.

E é por isso que eu não vou ler o seu fucking roteiro.

Raramente leva mais do que uma página para reconhecer um texto de alguém que pode escrever e raramente leva mais do que uma linha para perceber que você está lidando com alguém que não pode.

( Aliás, se você não concorda com essa afirmação, você não é um escritor. Porque, veja bem, escritores também são leitores.)

Você pode admitir que a pessoa nunca escreveu uma sinopse antes, mas isso não é desculpa para a incapacidade de formar uma frase decente, ou para a completa falta de facilidade com a linguagem e estrutura. A história do roteiro com certeza era de grande importância para ele, mas ele não foi capaz de transmitir suas qualidades para um leitor imparcial. O que me foi entregue era uma lista pouco coerente de eventos, alguns ligados, outros nem tanto. Personagens vagando sem rumo, fazendo coisas sem razão, desaparecendo, reaparecendo, sendo presos por crimes, sendo selvagens e mudando suas vidas sem nenhum sentido. Metade de um parágrafo é dedicado a descrever o cheiro e a textura de um pedaço de comida. O evento principal do filme é contado em uma frase. A morte do herói não é sequer mencionada. Uma frase descreve uma cena onde ele está. A próxima descreve o seu funeral. Eu poderia continuar, mas não vou. Este é o tipo de coisa que faz com que você tire nota vermelha em qualquer curso primário de redação.

Isso é o que nos faz ter raiva dos roteiristas iniciantes: Eles acham que para ser roteirista você não precisa saber escrever, é só ter uma boa idéia para história que possa virar um filme. O roteiro é considerado o meio mais fácil de entrar no mercado do cinema, porque não requer equipamento e nenhum tipo de faculdade específica. Todo mundo pode escrever, certo? E por eles acreditarem nisso, não consideram que roteiristas trabalham como qualquer outra pessoa, com respeito. Vão lhe entregar  um pedaço de papel com algumas frases montadas nas coxas, sem nenhum segundo pensamento, porque você não tem que ser um escritor para ser um roteirista.

Então, eu li a coisa. E isso doeu, man. Doeu de verdade. Eu estava morrendo para encontrar algo positivo para dizer, mas não havia nada. E na verdade, dizer algo positivo sobre aquilo seria a coisa mais nojenta, baixa e desonesta que eu poderia fazer. Porque aí é que está: não é apenas cruel encorajar a esperança, mas você também não pode desencorajar um escritor. Se alguém pode lhe dizer coisas para você se tornar um escritor, então você não é um escritor. Então eu lhe fiz um favor, porque agora você está livre para seguir sua busca pelo seu real talento. E para que conste, todo mundo tem um. Os sortudos os descorbrirão e os azarados continuarão a escrever roteiros de merda e pedirão para lê-los.

Para piorar a situação, o cara e a namorada me imploraram para que eu fosse honesto. Ele estava frustrado com as respostas que os amigos tinham dado, porque sentia que eles estavam o agradando e ele queria uma crítica real. Os amigos nunca fazem isso, é claro. O que o cara queria era algumas notas difíceis para ter uma ilusão de honestidade, e , em seguida, alguns tapinhas nas costas. O que eles querem, sempre, é o incentivo, mesmo quando não devem receber algum.

Você tem idéia de como é difícil dizer a alguém que já passou um ano escrevendo algo que aquilo não presta para nada? Sabe quanto sangue e suor está ali? Você quer dizer a verdade mas quer fazer tudo certo para que a pessoa entenda que foi honesto sem ser cruel por querer. Fiz mais tratamentos em um fucking email do que nos últimos três projetos que escrevi.

Meu primeiro projeto foi ridículo. Comecei com notas específicas e depois de um tempo, descobri que tinha escrito três páginas sobre os dois primeiro parágrafos. Não foi a abordagem certa. Então joguei fora, e pelo tempo havia trabalhado nele, tinha feito pouco, mas era cuidadoso. O ponto principal é que o cara foi vítima de uma falácia que os amadores pregam. Ele estava muito mais interessado em contar a sua história do que em ser um escritor. É como comprar as peças para montar um carro e começar a montá-lo sem ter a menor noção de mecânica. Você vai aprender muito ao longo do caminho, mas nunca terá um carro que funcione.

( Devo dizer que enquanto estava escrevendo a minha resposta, ele fez o movimento final do amador e me mandou um email dizendo:” Se você não leu ainda meu projeto, não leia! Tenho um novo projeto, leia este!” Em outras palavras, o projeto que lhe enviei e disse que estava pronto para me tornar um profissional não era verdade.)

O aconselhei se caso ele quisesse mesmo contar a história que procura-se um roteirista e que os dois trabalhassem juntos. Ou se ele quisesse mesmo ser um roteirista , que começasse a fazer um curso e estudasse.

Não deveria ter me incomodado. Para todo cabelo que arranquei, todo o peso e seriedade que dei ao pedido de uma crítica real e profissional, a resposta do cara foi: Obrigado por sua opinião. E claro, arquei com as consequências inevitáveis, uma semana depois, um amigo em comum me perguntou porque fui tão filho da puta. Agora o cara e sua namorada acham que eu sou um grande filho da puta, e a verdade é que a história se encerrou no momento em que ele me entregou a sua fucking sinopse. Se eu tivesse dito não, eles também me achariam um filho da puta. A diferença é que  eu não teria desperdiçado o meu tempo me comunicando, pensando e sendo honesto com alguém que só queria um tapinha nas costas. E o mais importante, eu não teria lida aquela merda.

Você não é obrigado a ter a opinião de um profissional, mesmo que você ache que é, e sim, isso é uma pressão enorme. Isso precisa ficar claro. Quando você pergunta a um profissional sobre o seu material, você não está lhe pedindo uma ou duas horas de sua vida, você está pedindo para que ele lhe dê de graça o conhecimento, percepção e habilidade adquiridos em anos de trabalho. Não é diferente do que pedir ao seu amigo pintor de paredes que em sua folga pinte a sua casa.

Há uma grande história sobre Pablo Picasso. Um cara pediu em um bar para que ele fizesse um desenho em um guardanapo. Picasso pegou uma caneta do bolso, fez um esboço, entregou ao rapaz e disse: Um milhão de doláres, por favor?

Um milhão de dólares? O cara exclamou. Isso só demorou trinta segundos!

Sim, disse Picaso. Mas levei cinquenta anos para aprender a desenhar em trinta segundos.

Se alguém pede ao profissional para faça uma leitura livre, significa que a pessoa não tem o menor respeito com o profissional. Se você ainda acha que é só sobre o tempo, então peça para um amigo seu não-roteirista ler. Eles podem até gostar do seu roteiro. Podem te olhar com respeito. Podem até conhecer alguém do audiovisual e ajudar você a vender  e assim tornará todos os seus sonhos realidade. Mas eu? Eu?

Eu não vou ler o seu fucking roteiro!

* Não traduzi fucking porque fucking é fucking, não há tradução.

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