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O de sempre – Sessão 05

16 jul

Eu sei, nunca mais vim aqui. Não gosto desse negócio de terapia. Quero carregar minhas dores, não apagar as cicatrizes. Quero viver assim.

Mas dias desses ouvi uma coisa que me incomodou. Me incomoda, martela na minha cabeça.

Estava criando com uma amiga e não acreditei que em pleno 2012 ainda existam meninas que sonham com um príncipe encantado.  Ela argumentou, falou para eu pensar em adolescentes, com menos bagagem, essas coisas. Eu não acreditava, não conseguia. Quando eu era adolescente, talvez. Agora? Impossível. Não comprei a história.

Não estou aqui para falar do quanto me tornei cínica e descrente sobre amor e essas coisas. Don’t ask about my business, Kay.  E aqui não é lugar para falar sobre isso. Voltemos ao que importa.  Aí minha amiga veio com a frase matadora. Você está muito fechada no seu mundo. Nocaute. E doeu. Sabe porque? Por que ela está certa.

Moro em São Paulo há 3 anos. Okay, quase 3. E desde então, nunca mais saí do eixo Perdizes – Higienópolis – Consolação – Bela Vista- Jardins. O Café de sempre, a livraria de sempre, o bar de sempre, a Av Paulista de sempre. As pessoas de sempre. De sempre.  Onde estão as minhas histórias?

Ah… Não quero falar mais. Ando quieta mesmo. Não, não quero falar sobre isso também. Quero novos ares.

 

 

Sobre o medo. De novo. – Sessão 04

10 jun

Encontrei esse texto do ano passado no ótimo site Scripped e achei que valia a pena traduzir. Farei considerações ao final.

Algumas coisas sobre “o medo de finalizar um projeto” de um roteirista

Por Britt J.

O medo de terminar um roteiro pode aparecer de repende, de forma ilógica justamente no momento em que a sua criatividade está fluindo.

Diferente de um bloqueio criativo, essa fobia costuma manifestar-se de modo crônico e oposto ao sentimento de frustração ou ao da capacidade de lutar. Ela pode durar semanas ou meses, ou até que seu cérebro ferva de modo que comece a parecer com a sopa que você toma no jantar.

Você já se perguntou porque irracionalmente se auto-sabota? E também, porque se auto-sabota geralmente em seus projetos mais promissores?

Gostaria de dizer que esse processo é lógico e racional. Ele é bem mais simples do o famoso medo do fracasso.

Se você é um roteirista que acredita que tenha uma chance real de ter sucesso no mercado, esse sonho se tornou tão incrível que lhe proporciona conforto ao longo de sua carreira. Você pode vê-lo como uma carta na manga, quando fala-se de um plano de carreira, aquilo que você usará quando tiver já um nome no mercado ou sua última tentativa. E aí sim, você o escreveria a qualquer custo.

Um modo de acabar com esse medo, é cair na lógica e perceber que a probabilidade de um real sucesso comercial é bem menor do que a fama e o sucesso que aguardam o seu incrível roteiro logo ali, na esquina dos seus sonhos.

No sonho, a certeza de um final feliz é de 100%, então porque motivo você trocaria isso pela real possibilidade de que exista uns 25% de chance de que dê certo? Por isso é tão lógico a escolha de sonhar ao invés de executar.

A melhor maneira de sair desse impasse é desafiar essa lógica e entender que um resultado não excluí o outro. E por isso digo, depois de um esforço sincero para transformar seu sonho em realidade e mostrar seu projeto completo para produtores e emissoras, e não der certo logo na primeira tentativa, não significa que o sonho tenha acabado.

Significa que nesse momento, esse projeto em especial, nessa produtora ou emissora, não funciona. Mas o seu sonho, continua são e salvo.

Como Steven Pressfield em seu livro The War of Art, os sonhos mais específicos emergem de dentro de nós por algum propósito mais profundo, mais significativo. Podem ser vistos como marcos pessoais de nossos chamados mais intímos. E eu acredito que isso é o que torna nossos sonhos indestrutíveis, a menos que nós escolhamos destruí-los.

Você precisa perguntar porque sonha com escrever e vender um roteiro e não com, por exemplo, projetar uma máquina. Não é por acaso, provavelmente exista uma razão por trás.

Contrastando com todos as chances reais de fracasso, como má direção, má edição, marketing inadequado, e assim por diante, seu sonho de sucesso mantém-se em um nível de indestrutibilidade e, ironicamente, um nível maior de “realidade” do que todos esses fatos do mercado possa apresentar.

O sonho é um presente que jamais poderá ser tirado de você. Não importa quantas vezes digam não, a verdade é que o seu sonho é maior que a vida, e está seguro dentro de você. Desde que você deixe. Mas você o deixará. caso contrário nunca teria sonhado. Ao contrário das falsas deadlines impostas por você mesmo para concluir o projeto antes de da-lo como fracassado, o tempo para o sonho é infinito.

O segredo é aceitar que seu sonho de ser roteirista é indestrutível e ao mesmo tempo concluir o projeto. Aceitando esse fato verdadeiramente, a essência do medo de terminar o projeto gradualmente será uma barreira a menos para ser enfrentada.

O texto original em inglês.

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Esse texto tem um tom bem de autoajuda e não sei se isso me agrada. Mas de vez em quando é bom ouvir que tudo vai dar certo e que os monstros que te assombram são apenas imaginários e se você acender a luz eles somem.

Uma curiosidade sobre o lidar com o primeiro não. Matthew Wainer, roteirista americano, levou 4 anos de nãos com sua série de baixo do braço, batendo de porta em porta em Hollywood. Ninguém queria.  4 anos de não para que chegasse o sim. Qual era o projeto? Mad Men. Pois é.

Sobre os filmes que amo – Sessão 3

20 maio

Terapia só para choradeira? I don’t think so. Gosto de colocar no shuffle do Ipod e deixar que pelo menos em algum momento do meu dia eu não precise escolher nada. Tenho altas surpresas. 16 gb de surpresa. Como minha vida é interessante… Uhu! Tudo isso para dizer que dia desses tocou uma música linda que é trilha de um filme incrível que eu esqueci com o passar dos anos. Um filme que mudou a minha vida. Não o esqueci na verdade, impossível esquecê-lo. Uma coisa puxa a outra e lembrei de outros filmes, no caso mais um filme e uma série que mudaram a minha vida.

Desde que eu era um toco de gente, dizia que queria fazer faculdade de Direito. Não era uma criança interessante querendo ser astronauta, bailarina, trabalhar no circo. Engraçado, cada vez mais em vejo com uma show woman circense, uma hora sou domadora de leões, na outra equilibrista e na maior parte do tempo palhaça sem graça nenhuma e deprimida. Foco. Eu não queria ser advogada, queria ser promotora. Queria combater o crime, prender os mal feitores. Jesus Christ, onde foi que eu deixei essa inocência? A quero de volta e agora! Fui crescendo e continuei querendo ser promotora, mas sei lá sabe? Tinha algo estranho. Claro, eu cresci sonhando em fazer faculdade de Direito, só podia ter algo estranho. Aí assisti esse filme. Despreocupademante. Por causa da música na verdade. Eu tinha 17 anos? Isso, ano 2000, 17. A minha história era muito parecida com a do Willian, a mãe, o sonho, o amor pela música, a solidão. A solidão era idêntica. Eu também amava o rock, sempre amei, nas minhas veias correm riffs de guitarra. O problema é que a minha cena não era a mesma que a dele. Eu não estava nos Estados Unidos na década de sententa. Corrigindo, eu não era jovem na década de 70 nos Estados Unidos. Ser jovem é vem importante, eu e ele tinhamos a mesma idade. O que eu ia fazer, seguir as bandas de rock curitibanas, risos, e escrever sobre elas? Porfa. Talvez por isso eu tenha insistido no Direito. Mas não por muito tempo. Tá bom, eu tinha medo tá? Não é fácil abrir mão de uma vida toda planejada, que ia dar certo, tinha tudo para isso. Tudo se eu não tivesse percebido que essa vida não pertencia a mim. Ainda bem que percebi logo, imagina passar anos sem saber o que esta errado. A música libertou o Willian/Cameron e o fez ter coragem para fazer o que quisesse da sua vida. Quase Famosos ajudou a me libertar também. Urgh, como eu sou brega, Deus do céu. Que clichê mais ridículo… Mas é a verdade, o que posso fazer? Outra coisa, que tipo de idiota eu sou para me influenciar com qualquer porcaria e arruinar a minha vida? Talvez a ruína da minha vida perfeita tenha sido a minha salvação. Esses filmes hollywoodianos diabólicos…

No primeiro texto do blog eu disse que não lembrava como tinha entendido que era roteirista. E não lembro mesmo. Mas lembro de uma aula que eu quase sempre chegava atrasada. História do Cinema, era isso? O nome eu não lembro, mas o professor sim, um excelente professor, de doutorado, muito inteligente. E numa bela noite, sala escura, curta no telão, E eu, bem, eu simplesmente fiquei maravilhada e entendi como uma das coisas mais incríveis que já tinha visto na minha vida. A mais incrível, na verdade, não lembro de ter me emocionado diante de uma obra de arte como aquela. Era mágico. Estou tentando achar uma outra palavras, mas não consigo. Mágico, só isso. Só consigo comparar com a emoção que senti em um Natal, eu devia ter uns 8 anos acho, eu e meus primos queríamos bicicletas. Na noite da Natal, a árvore montada, presente a postos. Presentes entregues, nada de bicicleta. Ficamos felizes, claro, mas né, cadê as bikes. Um dos meus tios veio do lado de fora e chamou a criançada na sala. Disse que alguém tinha acabado de sair da churrasqueira, pulado o moro e saiu correndo. Não, não era assalto, ele tinha deixado coisa lá. Coisas para nós, crianças. Saímos correndos que nem uns loucos e adivinha só. Eras as bicicletas! O Papai Noel tinha trazido as bicicletas! Sim, foi o Papai Noel e não ouse me corrigir, ok? Amo o Papai Noel. Foi um dos momentos mais incríveis da minha vida, meus olhos brilhavam, sabe, era um sonho. Essa era a emoção do La Voyage dans La Lune. Ali eu soube que queria fazer isso, não sabia o que, se dirigir, fotografar, escrever, fazer tudo ao mesmo tempo e ainda vender a entrada e estourar a pipoca na sessão dos meus filmes. Era isso. Passei minha vida toda, 24 anos até ali, tentando achar o que eu queria e era aquilo. E pura magia. Mélies era mágico, de profissão, antes de ser cineasta. Só podia ser. Fiquei fascinada com como com as poucas condições que tinha ele fez aquilo. Era o começo, era o homem aprendendo a lidar com o fogo. Depois veio Nosferatu, Encouraçado Potenkin e O Nascimento de Uma Nação. Eu amo esses filmes, muito, não pelo lado cult da coisa, mas porque mexem comigo, me deixam hipnotizada, sorrindo, emocionada, enfim, como uma boba. Me fazem sentir bem. Engraçado, esses dois filmes, Quase Famosos e La Voyage, eu associo com músicas. Quase Famosos, Tiny Dancer, shure, foi ela que me fez lembrar dele, fazia muito tempo que não ouvia. La Voyage dans La Lune inspirou o Smashing Pumpkings no clipe de Tonight Tonight, dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, a dupla Miss Sunshine. E Tonight Tonight me traz os mesmos sentimentos do filme do Mélies. Amo essa música também. Claro que a acho grandiosa por causa disso. E por causa da orquestra, do Cello. Adoro Cello, intenso, forte.

A série. Sopranos? Mad Men? Supernatural. Sim, Supernatural. Uh, ela não é cool. Foda-se. Assistindo Supernatural eu tive a idéia para o meu primeiro projeto. O Inexplicável foi tão, mais tão importante para mim. Me fez ver que eu estava certa e que não arruinei minha vida por um sonho que era só isso. Me fez trabalhar com pessoas criando. 17 primeiro. 11 depois. 17 e 11 pessoas numa sala de criação. Todas falando ao mesmo tempo. Todas querendo ser uma mais brilhante que a outra. Falando nos humanos, me fez fazer amigos, pessoas que se tornaram muito queridas para mim e que são meus grandes amigos aqui. Gente importante para mim. Muito importante. Uma dessas 11 pessoas passou a me odiar também. Só uma entre onze? Ok para mim. Me deu também o meu primeiro trabalho de verdade como roteirista. Nossa, esse dia. Tão rápido. Merecido. Quem diria que o Padre Miguel me daria tudo isso? O nome Miguel é simbólico,  como todos da série. Amo o mito Miguel e Lúcifer. Amo, pirei muito em cima dele. As vezes morri de medo também, mexer com essas coisas as vezes assusta. Mesmo que esse projeto jamais saia do papel, o que é muito provável, sempre terei muito orgulho dele. Mas muito. Sabe porque? Por que ele é foda. Ele é muito bom, desculpa mundo. E tudo isso veio de um dia em que eu assistia Supernatural.  Eu amo Sopranos com cada fibra do meu corpo, a verdade é que eu reconheço tanto aqueles sentimentos, os personagens daquela família que ás vezes me assusta, mas Supernatural é a série da minha vida. Até hoje. Espero que um dia eu diga o mesmo de Sopranos e Mad Men. Se eu conseguir terminar aquele projeto. O famoso. 1 fucking ano e meio.

É, eu sei, precisamos falar disso. Na próxima?

Sobre o Humor – Sessão 2

13 maio

É, faltei nas últimas semanas. Mal comecei a terapia e já falto. Estava com um trabalho pendente que não me deixava nem pensar direito. Tinha outras coisas também, estava muito ocupada. Tudo virou motivo para não aparecer por aqui, essa é a verdade, para quem estamos mentindo?

Hoje finalmente terminei o trabalho. Devia ter vindo nas outras semanas para falar dele. Soube na hora em que peguei a escaleta na mão que eu tinha que falar com você sobre. Mas sabe como é, preferi sofrer, não dormir, ter crises. Sabe aquelas cenas do Larry David no Tudo Pode dar Certo em que ele fica gritando The horror! The horror! de pijama pela casa? Essa era eu, mas eu gritava O humor! O humor! 

O humor. Fiquei traumatizada. Falava isso brincando mas é a pura verdade. Lembro de um produtor dizendo mais humor, mais humor. Era a sinopse. Não tem piada em sinopse. Jesus Christ. Lembro de um roteiro que era para ser engraçado e eu fiz piadas sensacionais. Eu as achei sensacionais. Mentira, nunca achei. Meu namorado achou. Ele lia meus roteiros. O diretor detestou. Com exceção de uma situação, uma coisa que eu tinha feito e não era engraçada. Pelo menos não para mim naquela época. Pensando bem agora, até que foi bem engraçada. Mas sabe, ver os outros rindo de você, ta chamando de louca, não é assim muito divertido. Ouvir aquela situação x é muito engraçada, surreal, é isso que eu quero não é nada fácil. Jurei nunca mais usar minha vida para um roteiro. Não cumpri. Mas esse não é o assunto, estou ficando boa nesse negócio de manter o foco.

Desde esse trabalho eu nunca mais escrevi humor. E agora, caiu na minha mão uma sitcom que é para ser de chorar de rir. Quer dizer, mais ou menos porque o tipo de humor que me pediram para escrever mescla uma sitcom e um ~humorista~ que não vejo a menor graça. Inclusive garrei um ódio desse humorista de tanto ouvir escreva um humor no estilo do fulano, fulano é muito engraçado, assista os programas do fulano. Olha só, eu quero é que esse fulano vá para a puta que o pariu. Me dava vontade de falar isso para eles. Se bem que aqui caberia melhor o puto que o pariu, mas deixa para lá. E também não é para que eu ache engraçado, mas para o público achar. E eles curtem o ~humoristão~ e seu programas.

E o pior, as pessoas me acham engraçada e sei que sou. Escrevo textos com humor para o meu blog, já te falei que tenho um blog né?, só que na hora em que abro o Final Draft, abro a escaleta, nada. Tudo fica horrível. Mas não é que só sem graça, o próprio texto saí muito ruim, mas muito ruim mesmo, sabe? Uma vergonha, um roteiro que se não estivessem me pagando eu jamais mostraria para alguém. Eu sei que está ruim porque dá para saber, sentir.  É no tato, sente-se na hora que esta digitando, na ponta dos dedos. Parece que trava.  E não estou me desmerecendo e nem com um preciosismo exagerado. Estava uma merda e ponto. Ah e outra coisa, só porque você faz piadinhas na vida, não significa que você escreva algo que seja engraçado. Muita gente devia entender isso. E o meu humor natural é tipo o do Woody Allen, meio mal humorada e tenho as minhas sacadas, mas daí a ser a humorista? Não, definitivamente não.

E outra, eu não gostava da protagonista. Ela é uma chata. Detesto. Ou eu é que passei a achá-la assim pela minha total incapacidade de botar palavras legais na boca dela. Bem provável. E se você, o roteirista não embarca junto com o protagonista, já era, o público não vai embarcar. Estava sem tesão para esse trabalho, essa é a grande verdade. E sem tesão não rola. Mas estava sendo paga, bem paga. Fica parecendo uma relação de prostituta e cliente, não? Talvez seja. Espero que eles gozem no final.

Enfim, um amigo me disse para parar de reclamar do tal fulano humoristão e assistir ao material dele e foi o que fiz. Mas assisti também muito Seinfeld, Louis C.K. e o próprio Larry David que já falei aqui hoje. Amo Louis e Larry, eles sim são engraçados. Mirei neles, mas misturado com o fulano tenho certeza que acertei Escolhinha do Gugu. Queria fazer um trabalho bom, me esforcei, fiquei sem dormir e quando cochilava, acordava pensando no tal roteiro, no humor, humor.

E sabe o que é mais engraçado? Vou usar outra expressão. Sabe o que é mais curioso? Na quarta feira tive uma idéia para um projeto e guess what? Sitcom. Escrevi o projeto e o piloto na quinta e sexta e hoje terminei o segundo tratamento do roteiro. Simplesmente foi. Assim, fácil. E sabe, achei bem engraçado, de verdade. Tá certo que a pegada não é a mesma do que eu estava fazendo, mas ficou legal, ficou bom. Viu como evolui? Acho meu trabalho bom, sou dessas agora. Foi um modo de lidar com a minha crise e funcionou. Talvez eu te dispense e cada vez que tiver que lidar com algo eu faça um projeto novo. Brincadeira. Mas acontece que funcionou de verdade, acho que peguei a minha veia humorística e piloto do outro acabou ficando melhor e não o considero vergonhoso, está bem aceitável até. Quero ver os produtores gargalhando, dizendo que eu sou a criatura mais engraçada desde Andy Kaufmam. Tá, sei que isso não vai acontecer, mas sou uma sonhadora, o que posso fazer? E o Kaufman definitivamente não é um bom exemplo também, mas para mim o Supermouse dele é a coisa mais engraçada da face da Terra. Vou enviá-lo amanhã e que Deus nos ajude. Estou satisfeita com o que escrevi e até gosto da protagonista agora. Precisei de um projeto novo para exorcizar o meu fantasma e poder trabalhar decentemente.

Semana que vem eu volto, eu juro.

Sobre o Medo – Sessão 01

18 abr

Lendo o artigo incrível do roteirista, guionista, português João Nunes sobre a procrastinação, ficou muito claro e óbvio para mim porque ás vezes é tão difícil abrir o Final Draft ou o Pages. Preguiça? Não, medo meus caros, medo. E o João não apenas levanta a questão, como bota o dedo na ferida.

“Medo de falhar, medo de ficar aquém do esperado, medo de desiludir – a nós e aos outros” disse João.

Sobre falhar, todos nós iremos, cedo ou tarde. Ou cedo e tarde também. Vai acontecer e já aconteceu com todo mundo. Você vai ter chance de corrigir seu erro e mostrar que você é um bom roteirista? Nem sempre, sejamos sinceros, quase nunca na verdade. Não estou falando de que nunca mais você vai trabalhar, mas o mercado é exigente e existe muitos roteiristas disponíveis. Tenho uma falha horrenda, vinha de um trabalho que deu um problema imenso e fiquei traumatizada com o gênero, achei que não era capaz de escrever. E me apareceu esse outro logo depois, o mesmo gênero. Eu falhei e o trauma foi elevado a décima potência. Foi uma falha épica, tenho vergonha daquelas páginas que escrevi. Dia desses encontrei uma das pessoas envolvidas no trabalho em uma rede social e ele não lembrava direito e me reapresentei. Conversámos bem até essa hora. Depois que eu relembrei meu fracasso homérico, ficamos sem graça, claro, e a conversa morreu. Ele vai me chamar para outra coisa? Claro que não. Paciência, acontece. Ás vezes você e o diretor ou produtor não estão afinados, ás vezes ninguém sabe o que quer na verdade ou você erra mesmo. Não vou usar o clichê de que falhas são essencias porque só aprendemos com elas. Não sei vocês, mas eu aprendo bem mais com as séries, filmes e livros. Pode ser que você não está pronto, simples. Precisa de mais estudo e de vivência. É engraçado eu falar em vivência porque sou jovem, tenho 28 anos e 3 e meio de carreira. Carreira no drama? 1 ano e meio. Meu, só um ano e meio. Agora consigo enxergar e entender isso. Ano passado, sofria com um projeto. Queria que ele fosse tão bom quanto Sopranos e Mad Men. Bati a cabeça por meses até que um dia assistindo aos extras da primeira temporada de Sopranos, entendi que  não tenho a vivência e o respaldo do David Chase. Nem a do Matthew Weiner, que alias, levou anos de nãos com Mad Men  atê vende-lo e ser premiado, merecidamente, e tudo mais. Depois desse insight, ou de cair na realidade, o trabalho melhorou imensamente. Não o terminei ainda, mas isso é assunto para outro post, ou melhor, sessão.

Ficar aquém do esperado, tema fácil e que vou falar em uma linha. Se você esta esperando tapinhas nas costas, confetes, congratulações e ser amado, acho melhor escolher outra função no audiovisual. Sem mais.

Quanto a desiludir e aos outros, tente não fazer isso! Simples? Não. E aqui acho que entra um pouco do que eu falei sobre reconhecer que não está pronto. Não estar pronto ainda. Se você se julga abaixo das expectativas, corra atrás, pesquise, estude, escalete coisas parecidas com o seu trabalho até morrer. Agora, quem disse que o outro tem essa real expectativa sobre você? Você e o seu ego, é claro. Acabei de dizer que queria criar um Sopranos misturado com Mad Men. Quer dizer, a humildade passou longe aí, queria fazer uma obra prima e me julgava capaz quando comecei. Menos, bem menos. Também não é que você vai fazer qualquer coisa só porque não é um gênio. Aliás, alguém ainda quer ser gênio? Mesmo? Preocupe-se em fazer o seu melhor e não o melhor de quem quer que seja. Estou muito sábia e cagando regra sobre isso quando  nesse momento estou com um projeto incrível e uma oportunidade que todos os roteiristas que conheço arrancariam um braço para tê-la e não escrevo o que é preciso porque não quero decepcionar a pessoa que me propôs. Casa de ferreiro, já sabem. Agora você foi lá, fez o seu melhor e mesmo assim estão exigindo mais e cada vez mais e você não quer decepcionar, isso tem um nome: vida. Não sabe trabalhar sobre pressão? Você vai sofrer muito, ter ataques de nervos e quem sabe até enlouquecer.

Decepcionar a si mesmo, se você tem um ego como o da média, lá no céu, vai acontecer e muito. Passei por isso, me intitulei incapaz de escrever, uma verdadeira fraude, uma merda mesmo. Teve dias que nem ligar o notebook e abrir o Final Draft eu tinha coragem. O motivo era interno, a famosa crise criativa. Me curei porque um trabalho muito bom caiu no meu colo. Caiu mesmo porque nessa época eu nem tinha vontade de ir atrás de nada. Terapia de choque. Parei com o ” aí eu não sou talentosa, eu não sei escrever”. Talento? Ok, 10%. E eu tenho esses 10%. Agora o resto, pare de choramingar e escreva. Quanto mais você escreve melhor você fica, não tem outro modo. Vão sair coisa horríveis? Claro, mas depois melhoram.

O João não falou sobre um medo que eu vejo em muitos amigos meus. E em mim, claro. Medo de que as coisas dêem certo. A pior coisa que pode acontecer a um sonhador, desses bem românticos, é que os sonhos se realizem. Porque daí ele vê que o sonho não é tão perfeito, que o mundo que ele tanto queria não é cor de rosa. E como lidar com isso? E também o que ele sonhará agora? Era isso? Sim, era isso. É foda. Roteirista não é sonho, é vida real, é um trabalho e ás vezes é muito duro. Mas vale cada noite sem dormir, lhes garanto. Aos que estão na transição de uma profissão para o roteiro, percam as ilusões e trabalhem mais no que vocês realmente querem. Dediquem-se ao invés de ficarem lamentando sobre a horrível sorte de ter um trabalho que não gostam. Eu sei que é difícil abrir mão do status quo, mas se você quer mesmo, depende de você. Você quer isso mesmo? Tem certeza? Então vai, filho! E mais uma vez, acabe com suas ilusões. Sério isso.

Não sei se terminei o texto falando sobre as mesmas coisas do começo e não vou editá-lo. São pensamentos crus que assolam meus amigos roteiristas e a mim. Não sei se terá sentido para quem ler. Alguém vai ler? Quanta pretensão. Será uma sessão nova nesse blog e não me preocuparei com nexo em nada. Falando em medo, levei 3 meses para ter coragem de botar esse blog no ar. Medo de falar besteira sobre roteiro e me queimar no mercado, medo de que as pessoas não me achassem tão inteligente assim, medo de não saber escrever um post, afinal é totalmente diferente de roteiro. Mas o enfrentei. E já que toquei no assunto, vou criar vergonha na cara e mandar o material que me pediram.