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Brasil congelado

19 jul

Acordei cedo hoje e como de costume, fiquei de olho no twitter (@Tatidemello),  Todo mundo queria se congelar para esperar até as 9 da noite, quando começaria o capítulo 100 de Avenida Brasil. Quando digo todo mundo, me refiro a alta social media, gente que influencia dezenas de milhares de seguidores que também congelaram-se. Todos esperando o capítulo 100 de uma novela.

E assim seguiu o dia todo. Não se twittava sobre outra coisa. Ou se se twittava, não importava. Minha timeline inteira estava congelada. Todos os grandes portais de internet tinham um tutorial sobre como se congelar no photoshop.

Não me congelei, só porque não tenho a versão do photoshop para o Mac e só por isso, mas parei as máquinas porque não conseguia sair do twitter, desprogramei um post que entraria hoje e parei um novo que escrevia em função desse. Em função de Avenida Brasil.

O perfil da loja Ponto Frio ficou congelado.

E tanta movimentação em função de quê? De uma novela, fellas, uma novela de puro entretenimento e que pasmem, tem cenário, personagens, trilha sonora e diálogo  para agradar a nova classe C.

Me coloquei no lugar de João Emanuel Carneiro e me emocionou imaginar como seria movimentar um país com a minha obra.

Acredito que poucas vezes a dramaturgia brasileira viveu um momento como hoje. Alcides Nogueira, que escreveu com Lauro César Muniz O Salvador da Pátria, disse que na época tinha pixado nos muros Sassá Mutema para presidente. Um personagem. Outra marcante, o último capítulo de A Próxima Vítima, em que todo mundo queria saber quem era o serial killer do Opala preto.

Novelas param o Brasil.

E ainda assim querer escrever entretenimento, puro entretenimento, é visto com maus olhos, com uma arte menor. Ser popular e escrever para a massa? Imagina, somos bons e pedantes demais para isso.

Bom, só posso dizer uma coisa aos fellas roteiristas que ainda pensam assim:

OI OI OI

Parabéns ao incrível João Emanuel Carneiro que construiu uma trama tão foda, personagens tão complexos e que no capítulo 100 parou o Brasil com uma novela de tanta qualidade.

Ah, quem congelou o João Emanuel para mim foi o querido Rafael Gabden, @_urgh, do Frases do Rafael Gabden e Cartas para Pi. Obrigada! E não peçam para que ele congele vocês, ele tem mais o que fazer. E também obrigada para a Julia Bobrow, @Juliabobrow, que estava com o avatar mais incrível da minha timeline junto com o Daniel Guth , @Danielguth .

P.S.: Escrevi esse post pela tarde porque estaria em uma leitura dramática no horario da novela. Depois da leitura, aconteceu um debate e Marcelo Lazzarotto disse a seguinte frase : A arte não pode ser setorizada. Acho que cabe a Avenida Brasil

Vamos falar dela e de nós

24 jun

Ela, a novíssima classe média brasileira, a emergente classe C. Nós, roteirista.

Na última quinta feira assisti a um debate com o sociólogo e professor Renato Ortiz a respeito do assunto. Revendo as anotações que fiz, dados que demonstram o porquê dessa ascensão, sim tem muito a ver com a política dos últimos 3 governos. Bom, não é isso que interessa, ao menos não nesse texto. O fato é que a nova classe média é composta por mais de 58% da população. Essa nova parcela vem da ascensão da classe D e E. Okay,  nenhuma grande novidade, mas acho necessário deixar claro caso alguém não saiba, tipo se um marciano ler meu post.

Esse negócio de distribuição das classe não é tão simples quanto os dados que valem nessa estatística. Sigo a escola Pierre Bourdier, acredito que a a classe social a que o indivíduo pertence tem mais a ver com o seu capital cultural. E isso fellas, não depende de renda. Claro, as classes são móveis, não estamos mais no feudalismo, não é verdade? Qualquer um pode galgar um lugar um pouco mais ensolarado na hora que bem entender.

Tá. Muito bom, muito bonito. E o que isso tem a ver? É necessário falar que a TV busca agradar a essa parcela imensa da população, porque, claro, sendo a maioria, a classe C tem o poder? Quando eu me referir a poder, entendam dinheiro, poder de consumo. Tem algum problema nisso? Claro que não! Isso é bussiness, fellas. Por enquanto serei bem específica sobre a TV. Qual é o maior produto da TV brasileira? Pois é, claro que as novelas são o principal alvo para fidelizar esse público. Cheias de Charme e Avenida Brasi, horário nobre com  média de 43 pontos no Ibope, no ar na Rede Globo e anteriormente Vidas em Jogo na Record.

Estou óbvia, eu sei, mas é necessário para que eu chegue onde quero chegar. É a tendência do mercado e essa onda está só começando.

Bem, estou enrolando muito já. Vejo uma onda de roteiristas, principalmente novos, muito empolgados com isso. O que é bom, não é? Estão se preparando para trabalhar, ótimo. Só que percebo que uma coisa não está bem clara. Escrever para a nova classe C, que sim, tem um nível acadêmico e cultural inferior do que a antiga classe média, não significa baixar o nível do escritor. Falo baixar o nível no bom sentido, se é que é possível, bem, vou dar um exemplo para deixar mais claro.

Avenida Brasil passa-se em um lixão. Os ~ricos~ da novela são a classe C emergente, pessoas que pertenciam a classe D ou E que enriqueceram financeiramente, mas mantém suas raízes, gostando de pagode, churrascos na laje, enfim, tudo que a antiga classe média execra. Esse é o cenário de Avenida Brasil. A história? Personagens tridimensionais, trama rápida, uma mistura de série com novela. Mudou o cenário, talvez as palavras do diálogo, a trilha sonora. E só. Inclusive o João Emanuel Carneiro se fosse comparado a algum autor brasileiro, talvez pudesse ser ao Lauro César Muniz, pela complexidade de personagens e narrativa diferenciada. Não a Janete Clair, a lenda, que escrevia personagens maniqueístas.

Me parece muitas vezes que o escrever para a nova classe C é entendido como não precisar ler e assistir a coisas consideradas difíceis. Porque vou assistir Fellini se meu público quer American Pie? Porque eu preciso evoluir culturalmente  se as minhas histórias serão voltadas a um público que não me entenderá?

Usar um cenário popular, ter uma trilha sonora com muito pagode não significa ser simples. Significa adequar o seu produto ao mercado, ao que as pessoa querem ver. Todo mundo quer se ver na TV, não é isso? Agora, ser simples nas tramas? Não se submeter a experiências desafiadoras culturalmente?  Um roteirista?

Teve um capítulo de Avenida Brasil em que o Tufão estava lendo Kafka. Vocês acham que o João Emanuel Carneiro colocou isso em cena porque ele jogou no google, escritor e apareceu Kafka e ele achou que seria legal? Não fellas, ele colocou isso porque provavelmente Kafka seja uma referência que ele usa para escrever Avenida Brasil. Kafka para a nova classe C. Deu para entender agora?

Espero que sim. De verdade, fellas roteiristas.