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De frente com Vladimir Nabokov

1 jul

Tradução de um entrevista feita por Herbert Gold em 1967 com um dos membros da Santísssima Trindade Russa, Vladimir Nabokov. Entrevista longa, mas incrível, onde Nabokov, sem papas na língua, fala sobre Lolita, livro e filme, sua relação com a Rússia e os Estados Unidos, seus escritores favoritos, os que detesta, críticos, James Joyce e mais um monte de coisas. Agora quietos! Um gênio vai falar.

Vladimir Nabokov, A Arte da Ficção n˚40

Vladimir Nabokov vive com sua esposa Véra em Montreux, Suíça no Montreux Palace Hotel, um resort no lago Geneva, favorito de aristocratas russos do século passado.

O casal vive entre quartos de hotéis e suas casas e apartamentos nos Estados Unidos. Parecem viver em eterno exílio. Em suas suítes, um lugar reservado para receber a visita do filho Dmitri e outro, o chambre debarras, onde guardam coisas pessoais, entre elas edições turcas e japonesas de Lolita, outros livros, equipamento esportivo e uma bandeira americana.

Nabokov acorda cedo e começa a trabalhar. Costuma escrever em cartões, desses pequenos, que podem ser arquivados, e que gradualmente são copiados, ampliados e reorganizados até que se tornem livros. Durante a temporada em Montreux, Vladimir gosta de pegar sol e nadar na piscina que fica em um jardim próximo ao hotel. Sua aparência aos 68 anos é pesada,  lenta e poderosa. Nabokov vai facilmente do bom ao mau humor, preferindo o primeiro. Sua esposa, sua fiel colaboradora não oficial, é extremamente devotada e atenta, seja cuidando das cartas de Vladimir, dos negócios ou até mesmo interrompendo-o quando julga que o marido está falando algo não apropriado. É sem dúvida uma mulher excepcionalmente bonita, com olhos sombrios. O casal gosta de fazer viagens para caçar borboletas. Mas essas viagens são limitadas dado que o casal não gosta de viajar de avião.

A entrevista foi feita a cerca de um número de questões. Quando chegou em Montreux, Nabokov recebeu um envelope com as perguntas que vieram a se transformar nessa entrevista. Algumas perguntas foram colocadas depois da entrevista, que foi publicada no  verão/outono de 1967 na The Paris Review. De acordo com o desejo de Vladimir, as respostas foram publicadas exatamente como ele escreveu. Diz que precisa escrever por conta de sua falta de familiaridade com o inglês britânico, o que acaba virando um constante motivo de chacotas.  Ele fala com um sotaque dramático de Cambridge, ligeiramente matizado pelo sotaque russo. Falar inglês não é nenhum desafio para ele, mas no entanto, é uma ameaça. Não há dúvida dos efeitos trágicos que sofre por conta das conspirações que o obrigaram a deixar a Rússia já na meia idade, o obrigando a escrever em um idioma que não é o seu. Suas desculpas para a compreensão do inglês fazem parte de uma triste piada interna de Nabokov: Ele quer dizer, ele não quer dizer, ele está de luto por sua perda, ele não admite críticas sobre o seu estilo, ele finge ser apenas um pobre estrangeiro solitário, ele é tão americano…, disse em Abril, no Arizona.

No momento Vladimir Nabokov trabalha em um longo romance que explora as ambiguidades e mistério do tempo. Quando fala sobre o novo livro, suas voz e olhar são os mesmos de um jovem e encantado escritor, ansioso para acabar sua obra.

Herbert Gold – Bom dia. Deixe-me te fazer aquelas 40 perguntas.

Vladimir Nabokov- Bom dia. Eu estou pronto.

HG- Seu senso de imoralidade na relação entre Humbert Humbert e Lolita é muito forte. Em Hollywood e em Nova York, são muito frequentes as relações entre homens de meia idade e garotas um pouco mais velhas que Lolita. Eles se casam, o que não é nenhum escandâlo. Pelo menos não a princípio.

VN – Não é o meu senso de imoralidade por Humbert Humbert e Lolita que é forte, é o senso de Humbert. Ele se importa, eu não. Não causei nenhum dano moral, seja na America ou em outro lugar. E também, os caso de homens de meia idade que se envolvem com garotas não começou com Lolita. Humbert procura por garotinhas, não apenas garotas. Ninfetas são meninas-mulheres, não são as gatinhas sexies. Lolita tinha 12 anos, não 18, quando Humbert a conheceu. Você deve lembrar que quando ela tinha 14, ele se referiu a ela como a sua amante envelhecida.

HG – O crítico Pryce-Jones disse que você tem sentimentos como nenhum outro. Isso faz sentido para você? Ou significa que você sabe dos seus sentimentos melhor do que as pessoas normalmente sabem sobre si? Ou você descobriu-se em outros níveis? Ou é porque sua história é única?
VN – Não me lembro do artigo, mas se um crítico fez essa declaração, certamente ele explorou os sentimentos de  milhões de pessoas, em pelo menos três países, antes de chegar a sua conclusão. Se assim for, eu sou uma ave rara. Se, por outro lado, ele apenas limitou-se a interrogar os membros da sua família ou clube, sua declaração não pode ser discutida a sério.
HG – Outr0 crítico escreveu que o seu “mundo é estático. Pode Ficar tenso com a obsessão, mas não quebra como os mundos da realidade cotidiana. ” Você concorda? Sua visão sobre a vida é estática?
VN – “Realidade cotidiana” onde? O próprio termo “realidade cotidiana” é absolutamente estático, uma vez que pressupõe uma situação que está permanentemente observável, essencialmente objetiva e universalmente conhecida. Suspeito que você inventou esse perito em “realidade cotidiana.” Isso não existe.
HG – Ele fez ( nome do crítico, não citado na entrevista). Um terceiro crítico disse que você “diminui” os personagens, eu discordo, “para o ponto onde tornam-se cifras de uma farsa cósmica.”; Humbert, enquanto em quadros, tem uma comovente e insistente qualidade de um artista mimado.
VN –Gostaria de colocar de outro modo: Humbert Humbert é um miserável e cruel mas isso pode-se aplicar somente em sua relação com a menina. Além disso, como posso “diminuir” ao nível de cifras, personagens que eu mesmo inventei? Pode-se “diminuir” um personagem biografado, mas não uma criação.

HG – E.M. Forster fala de seus principais personagens, às vezes assumindo e ditando o curso de seus romances. Isso já foi um problema para você, ou você está no comando completo?

VN – Meu conhecimento sobre as obras do Sr. Forster está limitado a um romance, que não gosto, e de qualquer maneira, não foi ele que inventou essa técnica banal. Meus personagens são escravos.

HG – Clarence Brown de Princeton apontou semelhanças em seu trabalho. Ele se refere a você como “extremamente repetitivo” e que de maneiras completamente diferentes que você está dizendo em essência a mesma coisa. Ele fala do destino de ser a “musa de Nabokov.” Você está consciente de “repetir-se”, ou dito de outra forma, que se esforce para uma unidade consciente de sua prateleira de livros?

VN – Acho que eu já vi o ensaio de Clarence Brown, pode ter algo lá. Escritores parecem versátil, pois imitam muitos outros, passados e presentes. Originalidade artística tem apenas o seu próprio eu para copiar.

HG – Você acha que a crítica literária é intencional? Ou especificamente sobre seus próprios livros? É sempre instrutiva?

VN – O propósito de uma crítica é dizer algo sobre um livro. A crítica pode ser instrutiva no sentido de que ele dá aos leitores, incluindo o autor do livro, algumas informações sobre a inteligência do crítico, ou honestidade, ou ambos.

HG – E a função do editor? Devem oferecer aconselhamento literário?

VN – Por “editor”  suponho que você quer dizer revisor. Entre estes eu conheci criaturas límpidas do tato sem limites e ternura que iriam discutir comigo um ponto e vírgula como se fosse um ponto de honra, que, de fato, um ponto de arte muitas vezes é. Mas eu também encontrei alguns pomposos e brutos que tentavam “fazer sugestões”, que eu combatida com um estrondoso “stet!”

HG – É como um lepidóptero perseguindo suas vítimas? Se assim for, o vosso riso já não assustaria?
VN – Pelo contrário, levaria-os ao estado de segurança que um inseto experimenta quando está em uma folha seca. Apesar de lembrar, por acaso, do ensaio de uma jovem que tentou encontrar símbolos entomológicos em minha ficção. O ensaio teria sido divertido se soubesse alguma coisa sobre Lepidoptera. Infelizmente, ela revelou completa ignorância, e confusão nos termos empregados, provou ser apenas chocante e absurdo.

HG – Como você definiria a sua alienação em relação aos refugiados chamados de “Russos Brancos”?

VN – Bem, historicamente sou um “Russo Branco”, uma vez que todos os russos que deixaram a Rússia como a minha família fez nos primeiros anos da tirania bolchevique por causa da oposição política, são chamados russos brancos em um amplo sentido. Entre os  russos branco há uma separação social e política, assim como era  a nação antes do golpe bolchevique. Não me misturo com os Cem Negros e nem com os bolshevizans, que são Russos Rosa. Por outro lado, tenho amigos entre os intelectuais monarquistas constitucionais, bem como entre os intelectuais socialistas-revolucionários . Meu pai era um liberal à moda antiga, e não me importo em ser rotulado como um liberal à moda antiga também.

HG – Como você define a sua alienação sobre a Rússia de hoje?

VN – Como um profunda desconfiança no falso desbloqueio agora anunciado. Como uma consciência constante de iniquidades irredimível. Com completa indiferença a tudo o que move um homem Sovietski patriótico de hoje. Com a satisfação de ter entendido tão cedo, 1918, o leninismo meshchantsvo.

HG – O que você acha dos poetas como Blok e Mandelshtan, que já escreviam mesmo antes de você deixar a Rússia? 

VN – Eu os li na minha infância, mais de meio século atrás. Desde aquele tempo sou apaixonado por Blok. Suas peças longas são fracas, e o famoso The Twelve é terrível, conscientemente formulada em um falso tom primitivo, com uma rosa de papelão colado sobre Jesus Cristo no final. Quanto ao Mandelshtam, eu também o conhecia de cor, mas ele me deu um prazer menos fervoroso. Hoje, sob o prisma de um destino trágico, sua poesia parece maior do que realmente é. Vejo que os professores de literatura separam esses dois poetas em diferentes escolas. Há apenas uma escola: a de talento.

HG – Eu sei que seu trabalho foi lido e atacado na União Soviética. Como você se sente em relação as edições soviéticas de seu trabalho?

VN – Oh, eles gostam do meu trabalho. Victor Editions me enviou um o convite para a reedição do original em russo de Convite para uma Decapitação, de 1938  e a editora novaiorquina  Phaedra faz a impressão da tradução russa de Lolita. Estou certo de que o governo soviético ficará feliz em admitir um romance que parece conter uma profecia do regime de Hitler, e um romance que condena duramente o sistema americano de motéis.

HG – Alguma vez você já teve contato com cidadãos soviéticos? De que tipo?

VN – Tenho quase nenhum contato com eles, embora uma vez, no início dos anos trinta ou vinte anos, fiz contato, por pura curiosidade, com um agente da Rússia bolchevista que estava se esforçando para obter escritores e artistas emigrados para retornar ao redil . Ele tinha um nome duplo, algo Lebedev, e tinha escrito uma novela intitulada Chocolate, e eu pensei que eu poderíamos trabalhar juntos. Perguntei se seria permitido escrever livremente e eu seria capaz de deixar a Rússia se eu não gostasse de lá. Ele disse que eu estaria tão ocupado gostando lá que não teria tempo para sonhar em ir para o estrangeiro. Disse também que eu seria perfeitamente livre para escolher qualquer um dos muitos temas da Rússia Soviética, tais como fazendas, fábricas, florestas em Fakistan-oh, muitos assuntos fascinantes para qualquer escritor. Eu disse, fazendas? E meu miserável sedutor logo desistiu. Ele teve mais sorte com o compositor Prokofiev.

HG – Você se considera um americano?

VN – Sim, me considero. Sou tão americano quanto em Abril, no Arizona. A flora, a fauna, o ar dos países ocidentais, são meus laços com a Rússia. Claro, devo muito à língua russa mas sou emocionalmente envolvido com a paisagem, digamos,  da literatura americana regional, com as danças indianas e torta de abóbora. Me orgulho muito quando alegremente mostro o meu passaporte americano nas fronteiras europeias. As duras críticas do American me ofendem e angustiam. Na política interna, sou antisegregacionista. Na externa, definitivamente estou do lado do governo. E fico em dúvida, sigo o método simples de escolha nessa linha de conduta que pode ser o mais desagradável para os Reds e os Russells.

HG – Existe uma comunidade da qual você se considera parte?

VN – Não. Posso mentalmente coletar um grande número de indivíduos a quem gosto muito de, mas eles formariam um grupo muito heterogêneo e discordantes se reunidos na vida real, em uma ilha real. Caso contrário, eu diria que estou bastante confortável na companhia de intelectuais norte-americanos que leram meus livros.

HG – Qual é sua opinião sobre o mundo acadêmico como um meio para um escritor criativo? Você poderia falar especificamente do valor ou em detrimento de seu ensino na Universidade de Cornell?

VN – A biblioteca da faculdade é de primeira linha e tem um campus confortável em torno dela,  é um bom ambiente para um escritor. Há, obviamente, o problema da formação dos jovens. Lembro como uma vez, não na Universidade de Cornell, um aluno trouxe uma pequena caixa de música com ele para a sala de leitura. Ele dizia que estava tocando a música clássica baixinho e que assim não haveriam muitos leitores ao redor no verão. Eu estava lá, uma multidão de um homem só.

HG – Como você descreveria seu relacionamento com a comunidade literária contemporânea? Com Edmund Wilson, Mary McCarthy, seus editores de revistas e editoras de livros?

VN – A única vez que colaborei com qualquer escritor foi quando traduzi Mozart, com Edmund Wilson, Pushkin e Salieri para o The New Republic, há vinte e cinco anos atrás, uma lembrança bastante paradoxal em vista do ano passado, quando tiveram a audácia de questionar minha compreensão de Eugene Onegin. Mary McCarthy, por outro lado, tem sido muito gentil comigo. Recentemente na New Republic mesmo, embora eu acho que ela acrescentou um pouco de sua própria aura angelical ao fogo pálido do pudim de ameixa Kinbote. Eu prefiro não mencionar aqui o meu relacionamento com Girodias, mas respondi no artigo escorbuto Evergreen na antologia Olympia. Caso contrário, eu estou em excelentes relações com todos os meus editores. Minha amizade calorosa com Katharine White e Bill Maxwell da The New Yorker é algo que o autor mais arrogante não pode evocar sem gratidão e alegria.

HG – Poderia dizer algo sobre seus hábitos de trabalho? Você faz um gráfico de pré-planejado? Você salta de uma seção para outra, ou prefere escrever do início até o fim?

VN – O padrão precede a escrita. Eu preencher as lacunas de palavras cruzadas em qualquer ponto que eu escolher. Os beats, escrevo em cartões de índice até que o romance é feito. Meu horário é flexível, mas sou bastante exigente com meus instrumentos: cartões alinhados do Bristol e lápis bem afiados e não muito duros com tampas de borrachas.

HG – Existe uma imagem particular do mundo que você deseja desenvolver? O passado é muito presente para você, mesmo em um romance futurista, como Bend Sinister. Você é um saudosista? Em que momento você preferiria viver?

VN – No futuro, com aviões silenciosos e graciosos, sem nuvens e céus prateados, e com um sistema universal de estradas subterrâneas acolchoadas estradas para que os caminhões transitem por lá. Quanto ao passado, não me importaria em recuperar vários cantos do tempo-espaço para resgatar certos confortos perdidos, tais como calças largas e compridas e banheiras profundas.

HG – Você sabe que não tem que responder todas as minhas perguntas semelhantes a Kinbote.

VN – Ele nunca pularia as difíceis. Vamos continuar.

HG – Além de escrever romances, o que você gosta de fazer?

VN – Oh, caçar borboletas, é claro, e estudá-las. Os prazeres e benefícios da inspiração literária não são nada ao lado do arrebatamento da descoberta de um novo órgão sob o microscópio, ou uma espécie não descrita em uma montanha no Irã ou no Peru. Não é improvável que se não tivesse havido uma revolução na Rússia, teria me dedicado inteiramente a lepidopterologia e nunca escrito um livro.

HG – O que é mais característico do poshlust na escrita contemporânea? Você já caiu em alguma tentação do poshlust?

VN – “Poshlust”, ou poshlost, tem muitas nuances e, evidentemente, não as descrevi com clareza suficiente em meu pequeno livro sobre Gogol, se você acha que se pode perguntar a alguém se pode ser tentado por poshlost. Clichês vulgares, filistinismo em todas as suas fases, imitações de imitações, falsas profundidades, em suma, imbecil e desonesta pseudo-literatura-são exemplos óbvios. Se queremos fixar poshlost por escrita contemporânea, devemos procurá-la no simbolismo freudiano, comido pelas traças, comentário social, mensagens humanistas, alegorias políticas, preocupação exagerada com classe ou raça, e as generalidades jornalísticas, mas isso todos nós sabemos. Poshlost fala em conceitos tais como “A América não é melhor que a Rússia” ou “Nós todos compartilhamos a culpa da Alemanha.” As flores de flor poshlost em frases e termos como “o momento da verdade,” carisma existencial, usado a sério, diálogo, quando aplicado a conversações políticas entre nações, e vocabulário, aplicado a um dauber. Auschwitz, Hiroshima, Vietnã é poshlost sediciosa. Pertencer a um clube muito seleto que ostenta um nome que judaico, é poshlost gentil. Opiniões roubadas são, frequentemente, poshlost, mas também se esconde em ensaios eruditos. Poshlost chama Sr. Blank de grande poeta e o Sr. Bluff de grande romancista. Um dos lugares favoritos de reprodução poshlost sempre foi a Exposição de Arte, lá é produzido pelos chamados escultores que trabalham com as ferramentas de sabotadores, a construção de coisas cretinas de aço inoxidável, aparelhos de som zen, stinkbirds poliestireno, objetos em latrinas, balas, enlatados e bolas. Há que admirar os padrões gabinetti dos chamados artistas abstratos, surrealismo freudiana, manchas roric e borrões de Rorschach como brega por direito próprio, como os acadêmicos “Morns Setember” e “Garotas das florentinas” de meio século atrás . A lista é longa, e, claro, todo mundo tem a sua bête noire, seu favorito na série.

HG – Há autores contemporâneos que você sente prazer em ler?

VN – Há vários escritores, mas não vou nomeá-los. Prazer anônimo não fere a ninguém.

HG – E há os que você lê com grande dor?

VN – Não. Muitos autores simplesmente não existem para mim. Seus nomes estão gravados em túmulos vazios, seus livros são bobos, eles são nulidades completas para mim. Brecht, Faulkner, Camus, muitos outros, não significam absolutamente nada para mim, e e tenho que lutar com uma suspeita de conspiração contra o meu cérebro quando os vejo como “grande literatura” dito por críticos e companheiro autores de Lady Chatterley ou o nonsense e pretensioso do Sr. Pound. Noto que ele substitui Dr. Schweitzer, em alguns casos.

HG – Como admirador de Borges e Joyce, que parecem compartilhar o seu prazer em provocar o leitor com truques, trocadilhos e enigmas, como você acha que dever ser o relacionamento entre leitor e autor?

VN – Não me recordo dos trocadilhos em Borges, mas li apenas a tradução. De qualquer forma, seus delicados e pequenos contos em miniatura não têm nada em comum com as grandes máquinas de Joyce. Nem eu formei os muitos quebra-cabeças de seu mais lúcido romance, Ulysses. Por outro lado, detesto Finningans Wakes em que um crescimento canceroso da fantasia quase redime a terrível jovialidade do folclore e do fácil, muito fácil.

HG – O que você aprendeu com Joyce?

VN – Nada.

HG – Mesmo?

VN – James Joyce não me influenciou de forma alguma. Meu primeiro contato breve com Ulysses foi por volta de 1920 na Universidade de Cambridge, quando um amigo, Peter Mrozovski, que trouxe uma cópia de Paris e teve a chance de ler para mim, uma ou duas passagens picantes do Monólogo de Molly, que, Entre Nous soit dit, é o mais fraco capítulo do livro. Apenas quinze anos depois, quando já estava bem formado como escritor e relutante em aprender ou desaprender qualquer coisa, li Ulysses e gostei imensamente. Sou indiferente a Finnegans Wake como sou a toda literatura regional escrita em dialeto, mesmo que seja o dialeto de um gênio.

HG – Você não está fazendo um livro sobre James Joyce?

VN – Mas não é só sobre ele. O que pretendo fazer é publicar uma série de 20 páginas-ensaios sobre várias obras-Ulysses, Madame Bovary, A Metamorfose de Kafka, Don Quixote, e outros, tudo com base nas minhas palestras em  Cornell e Harvard. Lembro com prazer  de rasgar Don Quixote, um livro cruel e bruto, diante de seiscentos alunos no Memorial Hall, para horror e constrangimento de alguns dos meus colegas mais conservadores.

HG – E sobre outras influências? Pushkin?

VN – Digamos que Tolstoi e Turgueniev foram influenciados pelo orgulho e pureza da artística de Puchkin.

HG – Gogol?

VN – Tive o cuidado de não aprender nada com ele. Como professor, ele é dúbio e perigoso. No seu pior, como em seu material ucraniano, ele é um escritor sem valor; no seu melhor, ele é incomparável e inimitável.

HG – Alguém mais?

VN – H.G. Wells, um grande artista, era meu escritor favorito quando eu era um menino.  The Passionate Friends, Ann Veronica, The Time Machine,  The Country of the Blind,  todas essas histórias, são muito melhores do que qualquer coisa de Bennett ou Conrad ou, na verdade, do que qualquer um dos contemporâneos de Wells. Suas cogitações sociológicas podem ser ignoradas, é claro, mas seus romances são soberbos. Houve um momento terrível no jantar em nossa casa de São Petersburgo, quando Zinaida Vengerov, seu tradutor,  disse a Wells: “. Você sabe, meu trabalho é favorito seu é The Lost World”. “Significa a guerra os marcianos perdido “, disse meu pai rapidamente.

HG – Você aprende com seus alunos da Universidade de Cornell? Ou foi uma experiência puramente financeira? Será que o ensino lhe ensinou alguma coisa valiosa?

VN – Meu método de ensinar impede qualquer com contato genuíno com meus alunos. Na melhor das hipóteses, eles regurgitam alguns pedaços de meu cérebro durante os exames. Cada palestra que proferi tinha sido cuidadosamente, amorosamente manuscritas ou digitadas, e eu calmamente as lia em sala de aula, às vezes parando para reescrever uma frase e, às vezes repetindo um parágrafo, raramente provocou qualquer mudança no ritmo. Tentei substituir, em vão, minhas aparições na tribuna pelos registros gravados para serem tocadas na rádio universitária. Por outro lado, gostei profundamente da risada de apreciação neste ou naquele ponto quente da sala ou das minhas palestras. Minha melhor recompensa vem daqueles ex-alunos que, dez ou quinze anos mais tarde, escrevem para me dizer que agora entendem o que eu queria deles quando os ensinei a visualizar o penteado mal traduzido de Emma Bovary ou a disposição dos quartos da família Samsa ou os dois homossexuais em Anna Karenina. Não sei se aprendi alguma coisa, mas acumulei uma quantidade inestimável de informação quando analisava uma dúzia de romances para meus alunos. Meu salário como você já sabe não era exatamente principesco.

HG – Há algo que você gostaria de dizer sobre a colaboração de sua esposa lhe deu?

VN – Ela presidiu como conselheira e juiza  minha primeira ficção no início dos anos vinte. Li para ela todos os meus contos e romances, pelo menos, duas vezes, e ela  os rele quando os digita e corrige provas e verifica traduções em várias línguas. Um dia, em 1950, em Ithaca, Nova York, ela foi responsável por  me fazer parar e pensar  acima das dificuldades técnicas e dúvidas dos primeiros capítulos de Lolita, que eu levava para o incinerar no jardim.

HG – Qual é a sua relação com as traduções de seus livros?

VN – Eu e minha esposa sabemos inglês, russo, francês, e em um pouco de alemão e italiano. Há uma verificação rigorosa em cada frase. No caso de versões em japonês ou turco, eu tento não imaginar os desastres.

HG – Quais são seus planos para o futuro trabalho?

VN – Estou escrevendo um novo romance, mas não posso falar sobre isso. Outro projeto que venho alimentando há algum tempo é a publicação do roteiro completo de Lolita que fiz para Kubrick. Embora haja apenas o suficiente para justificar minha posição legal como autor do roteiro, o filme é apenas um vislumbre turvo da imagem maravilhosa que eu imaginava  estabelecer cena por cena durante os seis meses que eu trabalhei em Los Angeles. Não quero dizer que o filme de Kubrick é medíocre; por direito próprio, é de primeira linha, mas não é o que eu escrevi. Um toque de poshlost muitas vezes é dado pelo cinema ao romance, que distorce e vulgariza em seu vidro curvo. Kubrick, penso eu, evitar essa falha em sua versão, mas eu nunca vou entender porque ele não seguiu minhas instruções e sonhos. É uma grande pena, mas pelo menos as pessoas leram o meu jogo em Lolita em sua forma original.

HG – Se você pudesse escolher apenas um livro pelo qual seria lembrado, qual seria?

VN – O que estou escrevendo ou melhor, sonhando com a escrita. Na verdade, vou ser lembrado por Lolita e meu trabalho em Eugene Onegin.

HG – Você sente que tem alguma falha visível ou secreta como um escritor?

VN – A ausência de um vocabulário natural. Uma coisa estranha de se confessar, mas é verdade. Dos dois instrumentos em minha posse, um minha língua nativa, não posso mais usar, e isso não só porque me falta um público russo, mas também porque a emoção da aventura verbal, o russo coloquial desapareceu gradualmente depois que escrevi em inglês. Meu inglês, este segundo instrumento sempre tive, é no entanto uma coisa artificial, que pode ficar bem para descrever um pôr do sol ou um inseto, mas que não pode esconder a pobreza da sintaxe e escassez de dicção doméstica quando  preciso de um  caminho mais curto entre o armazém e loja. Um velho Rolls-Royce não é sempre preferível a um simples jipe.

HG – O que você acha sobre o ranking competitivo de escritores contemporâneos?

VN – Sim, tenho notado que  nossos revisões são verdadeiras apostas. Quem está dentro, quem está fora, e onde estão as neves de antanho. Tudo muito divertido. Estou um pouco triste por ficar de fora. Ninguém pode decidir se sou um escritor de meia-idade americano ou um escritor ou velho russo uma aberração sem idade internacional.

HG – Qual é o grande pesar na sua carreira?

VN – Não ter vindo  mais cedo para a América. Gostaria de ter vivido em Nova York na década de trinta. Meus romances russos foram traduzidos então, eles poderiam ter fornecido um choque e uma lição para os entusiastas pró-soviéticos.

HG – Existe alguma desvantagem nessa sua fama atual?

VN – Lolita é famoso, eu  não. Sou obscuro, duplamente um escritor obscuro, com um nome impronunciável.

A original da entrevista aqui.

Chegou a hora, fellas! E quem diz isso não sou eu.

12 jun

Não é novidade a recente lei em que os canais de TV paga serão obrigados a exibir uma cota de programação produzida aqui no Brasil. Também não é novidade que essa lei já aqueceu o mercado e será importante para todos os profissionais da área.
Nesse domingo Fernando Meirelles deu uma entrevista à Folha de São Paulo falando a respeito. Vou publicar a entrevista que está no site da Folha porque nela, Meirelles deixa bem claro porque é um produtor e diretor diferenciado e porque a O2 é uma das maiores produtoras do Brasil.
Farei comentários em itálico abaixo das respostas e colocarei em negrito trechos importantes de Meirelles.

“Nova lei da TV paga fará indústria ser mais forte”, diz Fernando Meirelles
por Alberto Pereira Jr.

Uma semana após a publicação das últimas instruções normativas da Lei 12.485/2011, que fixa diretrizes para a TV paga no Brasil (veja detalhes acima), produtoras independentes comemoram o novo marco regulatório do setor.
Para elas, o estabelecimento de cotas obrigatórias de conteúdo nacional estimulará os negócios, já que ao menos 50% da faixa reservada a obras brasileiras deverão ser preenchidos por trabalhos de empresas independentes.
A íntegra da reportagem publicada na Folha deste domingo está disponível para assinantes do jornal e do UOL (empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).
Fernando Meirelles, sócio da O2 Filmes, uma das maiores produtoras independentes do país, se mostra entusiasmado com a nova lei da TV paga.
Leia a entrevista dele à Folha.
Folha – A demanda por conteúdo nacional já aumentou com a nova lei da TV paga?

Fernando Meirelles – No ato e imediatamente [risos]. Tivemos solicitações de praticamente todos os canais a cabo. Mandamos e-mail para todos os colaboradores da casa. De 54 projetos que vieram deles, selecionamos 32 e apresentamos para algumas emissoras na virada do ano.

Uma única produtora apresentando 32 projetos que vieram de fora, ou seja, feito por roteiristas que não são necessariamente contratados da O2. Está bom para vocês?


F – Era necessária a criação da lei para fomentar o mercado?

FM – Certamente. A maioria das emissoras de TV a cabo é filial de matrizes americanas. Para elas, é mais conveniente pegar um produto que é bom e está pronto, dublar ou legendar e exibir sem custo.
F- O que muda com a lei?


FM- As TVs são obrigadas a usar parte do seu faturamento em produção local. Essa lei vai ter o mesmo impacto que a Lei do Audiovisual [criada em 1993] teve no cinema. O Brasil fazia seis filmes por ano, veio a nova regra e, só em 2011, fizemos 105 longas. Foi a década de montagem da indústria. Não tenho dúvida de que, com a nova lei da TV paga, em dez anos vamos ter uma geração de programas muito mais forte.

F – Como os diretores de canais a cabo reagiram?

FM – Conversei com alguns executivos. É claro que teve um momento de reclamação, mas todos estão confiantes e, acho eu, muito mais estimulados a produzir.

Essa resposta se completa com a de pergunta sobre se era necessária a lei. Sabemos que houve um entidade, Sky, que realmente tentou combater a Lei. Em vão.


F – O público quer ver os artistas brasileiros na TV paga?

FM – Sim, mas não só isso. Tem o interesse de ver o próprio país.De ver a sociedade, ao invés de Dubai ou Xangai… As pessoas querem assistir a programas sobre São Paulo, sobre nossas cidades. As maiores audiências da TV a cabo são de programas brasileiros. O que dá mais certo na TV a cabo são os programas feitos aqui. É uma situação boa para todo mundo: incentiva o mercado, cria cultura e a produção e as TVs ganham mais audiência.
F – Qual gênero tem recebido mais encomenda?

FM – 
Tem um pouquinho de tudo. Apresentamos projetos de ficção para o GNT, ligados à Copa do Mundo. É um belo momento para quem tem projeto e para quem acabou de se formar e precisa trabalhar. É um marco na televisão e no audiovisual brasileiros.
Recado dado.

F -A tendência é um crescimento maior de damaturgia?

FM – Com certeza. Mais trabalho e oportunidades para atores e diretores. “Os Contos de Edgar”, que estamos fazendo para o FX, é dramaturgia. São histórias baseadas nos contos de Edgar Allan Poe.

Não disse fellas? E é ele quem falou.
F – Quais outros projetos já estão fechados com a TV paga?

FM – A Discovery estava procurando caras brasileiras para o seu elenco. Então, levamos um projeto de um jornalista meio aventureiro, chamado Fábio Lamanchia. É um cara que tem uma vida diferentona, viajando o Brasil. Temos o “360”, que é uma coincidência com o nome do meu novo longa-metragem, para a NatGeo. Vai ser uma série de programas meio jornalísticos, um “doc reality”, sobre problemas bem pungentes, como crack, educação, manejo sustentável de floresta, soja. Cada um dos temas é tratado de todos os pontos de vistas por meio de personagens.
F – Quais são os meios que a O2 usa para captar recursos para suas produções?


FM – A gente faz cinema, TV, TV a cabo e internet. Onde há uma brecha, temamos captar. Nunca usamos lei Rouanet, por exemplo. É uma lei supercomplicada. Por mexermos com publicidade, fazemos muitos projetos que são bancados com dinheiro não incentivado. O filme “Xingu”, por exemplo, contou com R$ 8 milhões de dinheiro não incentivado da Natura, da Fiat e da Globo. Os projetos que estamos fazendo com os canais Fox, “Os Contos de Edgar” e “360” não tem dinheiro de lei, é da própria Fox. Abrimos uma porta. As pessoas acreditam no negócio e passam a investir.
Umas das coisas que mais ouço de pessoas importantes do meio, é que o grande “problema” do cinema nacional são os roteiros, ou a falta de roteiros bons para serem filmados. Sempre acreditei que o grande problema do cinema nacional, muito antes de ser os roteiros, seja o fato de que ela toda, ou a grande maioria, dependa única e exclusivamente de dinheiro público para existir. Sim, dinheiro de impostos de empresas privadas é dinheiro público. A O2 ter uma postura diferente em relação a captação de seus recursos serve como exemplo de que é possível não viver, criar ou procurar projetos apenas focado em atender editais ou aparar-se unicamente na Lei Rouanet. Mais uma vez, grane parte dos filmes nacionais são frutos de leis de incentivo, pública e de empresas privadas, muitos editais e ainda patrocínio. Todos somos adultos o bastante para entender que estamos falando de negócios e ninguém está aqui para ter prejuízo, portanto é difícil. Mas difícil não é impossível, acho vale uma repensar como a indústria tem se portado. A O2 consegue não viver de lei e edital e estamos falando de grandes produções, consequentemente, falamos de grandes orçamentos. Parabéns ao Fernando Meirelles, produtor e diretor brasileiro de opinião e sem nenhum vestígio de acomodação em velhos sistemas falidos.