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O Início

12 fev

Adoraria contar uma história de uma tarde de outono curitibana em que eu, sentada em um dos dois mil e novecentos parques da cidade, fui iluminada pela luz do pôr do sol vermelho que só tem na minha cidade natal, e percebi que nasci para ser roteirista e de repente tudo passou a fazer sentido. Isso não aconteceu. Mas seria uma cena bonita.
Não lembro quando quis ser roteirista, lembro que na faculdade de Rádio e TV vi que não precisava escolher entre trabalhar com imagem ou com palavras. Conheci o Final Draft e passei a escrever as histórias que criei a vida inteira em cadernos nele. Passei a pensar em como faria as pessoas entenderem o que eu queria dizer em imagens em movimento. Tive que pensar nos diálogos e nos silêncios, especialmente nos silêncios. Lembro de ter comprado o livro do Doc Comparato, meu primeiro livro de roteiro, e de andar com ele para cima e para baixo,  anotar milhares de coisas e de não entender muitas.
Queria entender essas coisas. Queria estudar roteiro e queria ser a melhor roteirista do mundo. Vim para São Paulo para fazer um bom curso. Fiz o melhor. Aquelas dúvidas que eu trouxe do livro do Doc não eram nada perto das que eu passei a ter. Calma, prepare litros de café, preto e forte, e fume um cigarro. Agora estude, preste atenção, leia, assista milhares de filmes, os escalete e os roteirize, todos. Perceba como eles funcionam, como a história é contada e o que cada detalhes de cenas e diálogo diz. Como brinde, você ganha à maldição e o dom de nunca mais conseguir assistir a um filme impunemente. Ninguém me ensinou a ser a melhor roteirista do mundo, ainda bem, me ensinaram que o trabalho de roteirista é 10% inspiração e 90% transpiração e que ninguém está atrás de gênios.

Depois disso, ou não, essa fase de estudo, leitura e filmes nunca acabou e sinto que nunca acabará, comecei um curso prático, hora de botar a mão na massa e trabalhar numa sala de criação com 17 pessoas. Isso, 17 pessoas. Era o meu projeto, uma idéia e ela foi escolhida. Não sei se já disse o quanto fiquei orgulhosa disso. O projeto ficou lindo. Um piloto muito bem escrito, esse adjetivo não foi usado só por mim e pelas tais 17 pessoas. O curso acabou, cada um para o seu lado e Padre Miguel por nós todos. Em uma tarde que parecia como outra qualquer, recebi um telefonema daquele que falou que o trabalho de roteirista era transpiração. Ele me escolheu, pela sala de criação do curso, para escrever com ele e outros roteiristas  uma série em TV aberta. É, uma série, TV aberta, horário nobre e nacional. Não lembro dos meus joelhos terem tremido tanto em outro momento na minha vida.
E esse foi o início.