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A Marginalização “às avessas” e nossa conivência

26 jun

Quando, ainda adolescentes, nos bancos das escolas, aprendemos sobre o “Parlamentarismo às Avessas”, ocorrido em dado momento da história de nosso país, costumamos rir, e atribuir a culpa desta “adaptação” política risível, a alguma eventual “herança genética”, de nossos, muitas vezes desprestigiados, “descobridores”.

Ora, eu diria, que hoje, vivemos um momento de “marginalização às avessas” e cuja culpa (feliz ou infelizmente) não podemos atribuir a outrem, que não a nossa própria conivência.  Gostaria aqui, de abordar dois lados, desta deplorável situação, porém, antes disso, quero esclarecer: Sou alguém normal que tem TV, rádios, geladeira… enfim, todo o necessário para ser enquadrada pelas pesquisas de mercado como “classe C” – rótulo que até pouco tempo atrás em nada me incomodava! Porém, na medida em que se ouve, cada vez com mais frequência, o infeliz: “popularizar por conta da nova classe C”, começo a sentir arrepios, e a gritar, desesperadamente – “Não me ponham nesse balaio de gatos!!! Me joguem pra baixo, pra cima, de escanteio… mas não me confundam!!!” Por favor, vamos pensar (acreditem, faz bem, tudo que não é usado, corre o risco de atrofiar).  Já perceberam que está em moda “o vazio”, o “brega”, o “nada a acrescentar”?

Estamos sem dúvida caminhando para uma tentativa de se “nivelar por baixo”. Aparentemente as emissoras de televisão, passaram, na luta pela audiência, a ignorar que ainda há, no país, outras classes (incluindo uma C pensante), que estão sendo totalmente marginalizadas.  Acho que não está longe o dia em que se ter em casa, um aparelho de TV seja motivo de vergonha, seja um “assumir que não sou pensante”! Será que deixamos de ter direito a lazer, ou a ter que nos “conformar” com migalhas, cada vez mais raras? (cabe aqui ressaltar, não tenho TV a cabo, portanto, me refiro às abertas).

Também, até onde sou capaz de entender, ascender é crescer, subir! Não poucas vezes, na minha infância ouvi coisas como “o fulano lutou para melhorar de vida”! Podem me dizer então, por que o fulano que venceu, “ascendeu” teria se tornado um completo imbecil? Por acaso enquanto parte da classe D ele tinha um “tradutor” para explicar a ele o que se passava? Ou será que esta proposta atende a outros interesses? Pior!!! E a nossa postura, enquanto autores e seres pensantes? É triste, mas não absurdo se falar em “prostituição intelectual”… Então, talvez seja possível entender – não aceitar, mas entender – o que leva um criador a “parir um rato”, mas, me parece no mínimo digno de reflexão se pensar que estes ratos não vingariam, se enquanto público, nos recusássemos a alimentá-los com nossa audiência!

Gente, eu amo assistir TV, e quero ter direito a assistir coisa boa! Eu amo escrever, e quero ter o direito de escrever algo com conteúdo!!! Se você compartilha dessa opinião, não fique mudo, lembre-se do famoso (e esquecido):

“Na primeira noite eles aproximam-se

e colhem uma flor do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite,

já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo o nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada”

(Eduardo Alves da Costa – Trecho de “No caminho com Maiakóviski”)

Vamos falar dela e de nós

24 jun

Ela, a novíssima classe média brasileira, a emergente classe C. Nós, roteirista.

Na última quinta feira assisti a um debate com o sociólogo e professor Renato Ortiz a respeito do assunto. Revendo as anotações que fiz, dados que demonstram o porquê dessa ascensão, sim tem muito a ver com a política dos últimos 3 governos. Bom, não é isso que interessa, ao menos não nesse texto. O fato é que a nova classe média é composta por mais de 58% da população. Essa nova parcela vem da ascensão da classe D e E. Okay,  nenhuma grande novidade, mas acho necessário deixar claro caso alguém não saiba, tipo se um marciano ler meu post.

Esse negócio de distribuição das classe não é tão simples quanto os dados que valem nessa estatística. Sigo a escola Pierre Bourdier, acredito que a a classe social a que o indivíduo pertence tem mais a ver com o seu capital cultural. E isso fellas, não depende de renda. Claro, as classes são móveis, não estamos mais no feudalismo, não é verdade? Qualquer um pode galgar um lugar um pouco mais ensolarado na hora que bem entender.

Tá. Muito bom, muito bonito. E o que isso tem a ver? É necessário falar que a TV busca agradar a essa parcela imensa da população, porque, claro, sendo a maioria, a classe C tem o poder? Quando eu me referir a poder, entendam dinheiro, poder de consumo. Tem algum problema nisso? Claro que não! Isso é bussiness, fellas. Por enquanto serei bem específica sobre a TV. Qual é o maior produto da TV brasileira? Pois é, claro que as novelas são o principal alvo para fidelizar esse público. Cheias de Charme e Avenida Brasi, horário nobre com  média de 43 pontos no Ibope, no ar na Rede Globo e anteriormente Vidas em Jogo na Record.

Estou óbvia, eu sei, mas é necessário para que eu chegue onde quero chegar. É a tendência do mercado e essa onda está só começando.

Bem, estou enrolando muito já. Vejo uma onda de roteiristas, principalmente novos, muito empolgados com isso. O que é bom, não é? Estão se preparando para trabalhar, ótimo. Só que percebo que uma coisa não está bem clara. Escrever para a nova classe C, que sim, tem um nível acadêmico e cultural inferior do que a antiga classe média, não significa baixar o nível do escritor. Falo baixar o nível no bom sentido, se é que é possível, bem, vou dar um exemplo para deixar mais claro.

Avenida Brasil passa-se em um lixão. Os ~ricos~ da novela são a classe C emergente, pessoas que pertenciam a classe D ou E que enriqueceram financeiramente, mas mantém suas raízes, gostando de pagode, churrascos na laje, enfim, tudo que a antiga classe média execra. Esse é o cenário de Avenida Brasil. A história? Personagens tridimensionais, trama rápida, uma mistura de série com novela. Mudou o cenário, talvez as palavras do diálogo, a trilha sonora. E só. Inclusive o João Emanuel Carneiro se fosse comparado a algum autor brasileiro, talvez pudesse ser ao Lauro César Muniz, pela complexidade de personagens e narrativa diferenciada. Não a Janete Clair, a lenda, que escrevia personagens maniqueístas.

Me parece muitas vezes que o escrever para a nova classe C é entendido como não precisar ler e assistir a coisas consideradas difíceis. Porque vou assistir Fellini se meu público quer American Pie? Porque eu preciso evoluir culturalmente  se as minhas histórias serão voltadas a um público que não me entenderá?

Usar um cenário popular, ter uma trilha sonora com muito pagode não significa ser simples. Significa adequar o seu produto ao mercado, ao que as pessoa querem ver. Todo mundo quer se ver na TV, não é isso? Agora, ser simples nas tramas? Não se submeter a experiências desafiadoras culturalmente?  Um roteirista?

Teve um capítulo de Avenida Brasil em que o Tufão estava lendo Kafka. Vocês acham que o João Emanuel Carneiro colocou isso em cena porque ele jogou no google, escritor e apareceu Kafka e ele achou que seria legal? Não fellas, ele colocou isso porque provavelmente Kafka seja uma referência que ele usa para escrever Avenida Brasil. Kafka para a nova classe C. Deu para entender agora?

Espero que sim. De verdade, fellas roteiristas.