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O maior vilão de todos os tempos

4 jun

Dizem as más línguas que Carminha foi trocada por um liquidificador, foi prostituída e pagou por um crime que mãe Lucinda comenteu. E ela realmente ama o filho, o Jorginho. Os vilões também amam, os vilões também sofrem. Isso é muito rico na criação, torna o personagem muito mais próximo de nós, humanos. Ás vezes tão próximos, que chegam a ser mais humanos que muita gente com RG e CPF por aí.

Humanizar um vilão não é fácil. Na grande maioria das vezes é usado o artifício da justificativa. Ou ele tem um trauma, ou ele tem transtornos psíquicos, enfim, arruma-se algo que faz com que o público entenda o motivo de tanta maldade e sinta pena em alguns casos. Para mim, o grande lance não é justificar, é mostrar que aquela pessoa, personagem no caso, é má e pronto, só que ele não é mau o tempo inteiro, ele é pode ser gentil, pode amar, pode ser alegre.

Por isso escolhi falar desse filme, que para mim é brilhante nisso. E corajoso, mas muito corajoso. Antes de falar qual é, já vou logo dizendo que não sou nazista e abomino Hitler tanto quanto todo mundo. Não disse que era corajoso? Eu nem comecei o texto e já estou me justificando antes de ser chamada de nazi. Agora imagina o nível de coragem que um alemão teve que ter para humanizar Hitler em um filme?

Estou falando de Der Untergang, traduzido como A Queda! As últimas horas de Hitler dirigido por Oliver Hirschbiegel e escrito por Bernd Eichinger, indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro de 2005 e ao Goya como Melhor Filme Europeu de 2004.

Posso citar sem pensar nem por 10 minutos, pelos menos uns 15 filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. E aqui uma dicona: Gente, já deu o assunto, Bastardos Inglórios o encerrou para sempre. Sério mesmo.

De todos os filmes que tratam desse assunto, nenhum jamais mostrou a visão dos nazistas. Quem seria louco o bastante para isso? Quem investiria em um filme desses? Pois é, Bernd Eichinger foi louco o bastante e investiu. O filme é baseado no livro Inside Hitler’s Bunker: The last days of Third Reich, de Joachin Fest, historiador e escritor. Com certeza bebeu muito também no documentário Im totel Winkel e no livro Bis zur Ietzten Studen.Os três tem em comum uma figura, Traudl Junge, a secretária pessoal de Hitler de 1942 até o último momento de sua vida. Traudl faleceu em 2002, ou seja, as informações para todo esse material foi dada por ela mesma, peça histórica.

Falei lá em cima sobre humanizar um vilão. Acho que humanizar não é exatamente a palavra para descrever a figura de Hitler nesse filme, mas mostrar um lado que só os que conviveram com a pessoa Adolf poderiam conhecer. A pessoa Adolf eu acabei de escrever. Dá um puta medo escrever uma coisa dessas. Só para relembrar, não sou nazista, ok? Hitler está no nosso imaginário como o demônio encarnado. Na verdade acho que muito pior foi Goebbels, mas deixa para lá. Voltando, Hitler é para o mundo o maior vilão de todos os tempos, aquele que não tinha um traço de humanidade. E aí logo na primeira cena, o ditador é apresentado como um homem muito calmo, de fala mansa, gentil, simpático, paciente e compreensivo. Brilhante, logo percebe-se o diferencial do filme. Isso é em 1942, no momento em que o Fuhrer escolhe uma secretária, Traudl. A segunda cena, 1945, mostra um Hitler enlouquecido, nervoso, querendo enforcar soldados por Berlin estar sendo bombardeada.

O roteiro brinca com esse contraste o tempo inteiro, Hitler humano vs. Hitler que conhecemos. É fantástico porque são pequenas sutilezas. Você o vê em uma cena completamente desesperado e com todas as suas esperanças e sonhos destruídos e em outra como arrombos de arrogância e crueldade, condenando o povo alemão a ficar sem defesa bélica, visto que demonstrou-se fraco e então merece morrer. São muitas nuances em um único personagem, delírios megalomaníacos, crueldade em excesso, gentileza, a depressão da derrota, carinho e o choro. Humanidade ao maior vilão de todos os tempos. O roteiro usa isso lindamente, nunca vi nada igual em outro personagem. Mostra-se também uma coisa que o Fuhrer morria de medo que descobrissem, ele sofria de mal de Parkinson, então em várias cenas dá para vê-lo com um dos braços escondidos nas costas e tremendo. Era o que ele fazia para disfarçar. Ou tentar

Bruno Ganz, ator suiço que interpretou o ditador, teve um desempenho absurdo, merecia todos os prêmios de melhor ator oferecidos no mundo. Isso não aconteceu, é claro.

O final não é spoiler para ninguém. Hitler, derrotado e traído pelo seu alto comando militar, comente suicídio junto com sua esposa Eva Braun em 30. Em uma cena inclusive aparece ele e Eva conversando com Traudl e outra empregada calmamente sobre o suicídio, o modo como seria com a maior naturalidade e calma do mundo. É impressionante. Hitler sabia da derrota e o que aconteceria a ele quando capturado, então decidiu ele mesmo antecipar o inevitável, a morte iminente. Sua preocupação com o fim e a chegada dos Aliados ao Fuhrerbunker era tão grande, que ele deu ordens para que seu corpo fosse incinerado, com medo que fosse sei lá, retalhado e os pedaços exibidos para que servisse de exemplo. Enfim, não sei, vai saber o que se passava naquela mente. A ordem foi cumprida e provavelmente por isso os boatos, não havia corpo para comprovar, de que ele não teria morrido e sim fugido para a Argentina. Oi?!

Em estrutura, o roteiro infelizmente peca em várias coisas. Por ser baseado totalmente na realidade, a chance de que virasse um doc-drama era imensa. E seria se não tivessem colocado a história do menino soldado e do médico nazista arrependido. Só que o problema é que isso ficou muito evidente. Claramente percebe-se que essas histórias tem essa única função, fazer com que A Queda seja um filme de ficção. Mas não cola, as histórias estão muito descoladas do núcleo central e a força do personagem Hitler é imensa, não dá para ignorá-lo e sentir-se sensibilizado pelo encontro do menino e do pai. Não rolou.

Não sei se posso chamar isso de erro ou se eu de queria ver mais essa história. Goebbels era o segundo homem no comando do Terceiro Reich. Era o homem de maior confiança de Hitler, um não desgrudava do outro. Até o final do segundo ato, o Ministro da Propaganda passa totalmente despercebido pelo filme, chega a ser irrelevante. Sua importância nessa histórias só vem com a chegada de sua esposa e filhos ao Fuhrerbunker e o desfecho bizarro da família. Não é spoiler, a história esta aí, é só pesquisar. Goebbels e Magda, sua esposa, eram pais e 5 lindas, saudáveis e alegres crianças. Como permanecer fora da proteção do bunker era perigoso demais, o pai da família a leva para lá. Com a derrota do nazismo dada como certa, eis que a senhora Goebbels, Magda, decide, assim, que seus filhos não viveram em um mundo em que não exista o nazismo e ela mesmo os mata, um a um, com veneno enquanto eles dormem. Sim, todas as crianças mortas pela mãe louca e fanática. E a frase que eu usei sobre viverem em mundo onde não exista o nazismo é dita pela própria Magda, que para Hitler era a mãe mais corajosa do Terceiro Reich. Não existem nem termos ou palavras para avaliar o nível de loucura dessas pessoas. Isso é o fanatismo. Cuidado com ele, qualquer que seja a causa. Ela tinha escolha, os filhos poderiam facilmente ter as identidades trocadas e serem levados para viver longe da Europa, afinal eram inocentes, eram crianças. Mas não, ela escolheu matar os filhos. O fim desse senhora e de seu esposo, o homem que manipulou e fez lavagem cerebral em uma nação inteira, foi o suicídio também. Marido atirou em esposa e depois em si mesmo. E esse dois personagens só aparecem realmente no terceiro ato. Erro no roteiro, mas ok, o foco é outro.

Eu usei o termo humanizar o vilão e acredito que muita gente possa interpretá-lo mal. Humanizar não significa tornar o personagem malvado em bonzinho ou fazer com que sintamos pena dela. Significa dar tridimensionalidade a ele, não deixá-lo plano e com apenas uma característica, como a maldade ou mesmo a bondade. Vide os mocinhos e mocinhas chatérrimos que ganham a antipatia por serem bonzinhos demais. E sem dúvida A Queda! Foi o filme mais ousado nesse sentido por ter pegado o maior vilão do mundo e mostrá-lo entre rompantes de delírio e de crueldade, gentil com os que o cercavam. Mais uma vez, brilhante. Mais uma vez, não sou nazista.

Sobre o Humor – Sessão 2

13 maio

É, faltei nas últimas semanas. Mal comecei a terapia e já falto. Estava com um trabalho pendente que não me deixava nem pensar direito. Tinha outras coisas também, estava muito ocupada. Tudo virou motivo para não aparecer por aqui, essa é a verdade, para quem estamos mentindo?

Hoje finalmente terminei o trabalho. Devia ter vindo nas outras semanas para falar dele. Soube na hora em que peguei a escaleta na mão que eu tinha que falar com você sobre. Mas sabe como é, preferi sofrer, não dormir, ter crises. Sabe aquelas cenas do Larry David no Tudo Pode dar Certo em que ele fica gritando The horror! The horror! de pijama pela casa? Essa era eu, mas eu gritava O humor! O humor! 

O humor. Fiquei traumatizada. Falava isso brincando mas é a pura verdade. Lembro de um produtor dizendo mais humor, mais humor. Era a sinopse. Não tem piada em sinopse. Jesus Christ. Lembro de um roteiro que era para ser engraçado e eu fiz piadas sensacionais. Eu as achei sensacionais. Mentira, nunca achei. Meu namorado achou. Ele lia meus roteiros. O diretor detestou. Com exceção de uma situação, uma coisa que eu tinha feito e não era engraçada. Pelo menos não para mim naquela época. Pensando bem agora, até que foi bem engraçada. Mas sabe, ver os outros rindo de você, ta chamando de louca, não é assim muito divertido. Ouvir aquela situação x é muito engraçada, surreal, é isso que eu quero não é nada fácil. Jurei nunca mais usar minha vida para um roteiro. Não cumpri. Mas esse não é o assunto, estou ficando boa nesse negócio de manter o foco.

Desde esse trabalho eu nunca mais escrevi humor. E agora, caiu na minha mão uma sitcom que é para ser de chorar de rir. Quer dizer, mais ou menos porque o tipo de humor que me pediram para escrever mescla uma sitcom e um ~humorista~ que não vejo a menor graça. Inclusive garrei um ódio desse humorista de tanto ouvir escreva um humor no estilo do fulano, fulano é muito engraçado, assista os programas do fulano. Olha só, eu quero é que esse fulano vá para a puta que o pariu. Me dava vontade de falar isso para eles. Se bem que aqui caberia melhor o puto que o pariu, mas deixa para lá. E também não é para que eu ache engraçado, mas para o público achar. E eles curtem o ~humoristão~ e seu programas.

E o pior, as pessoas me acham engraçada e sei que sou. Escrevo textos com humor para o meu blog, já te falei que tenho um blog né?, só que na hora em que abro o Final Draft, abro a escaleta, nada. Tudo fica horrível. Mas não é que só sem graça, o próprio texto saí muito ruim, mas muito ruim mesmo, sabe? Uma vergonha, um roteiro que se não estivessem me pagando eu jamais mostraria para alguém. Eu sei que está ruim porque dá para saber, sentir.  É no tato, sente-se na hora que esta digitando, na ponta dos dedos. Parece que trava.  E não estou me desmerecendo e nem com um preciosismo exagerado. Estava uma merda e ponto. Ah e outra coisa, só porque você faz piadinhas na vida, não significa que você escreva algo que seja engraçado. Muita gente devia entender isso. E o meu humor natural é tipo o do Woody Allen, meio mal humorada e tenho as minhas sacadas, mas daí a ser a humorista? Não, definitivamente não.

E outra, eu não gostava da protagonista. Ela é uma chata. Detesto. Ou eu é que passei a achá-la assim pela minha total incapacidade de botar palavras legais na boca dela. Bem provável. E se você, o roteirista não embarca junto com o protagonista, já era, o público não vai embarcar. Estava sem tesão para esse trabalho, essa é a grande verdade. E sem tesão não rola. Mas estava sendo paga, bem paga. Fica parecendo uma relação de prostituta e cliente, não? Talvez seja. Espero que eles gozem no final.

Enfim, um amigo me disse para parar de reclamar do tal fulano humoristão e assistir ao material dele e foi o que fiz. Mas assisti também muito Seinfeld, Louis C.K. e o próprio Larry David que já falei aqui hoje. Amo Louis e Larry, eles sim são engraçados. Mirei neles, mas misturado com o fulano tenho certeza que acertei Escolhinha do Gugu. Queria fazer um trabalho bom, me esforcei, fiquei sem dormir e quando cochilava, acordava pensando no tal roteiro, no humor, humor.

E sabe o que é mais engraçado? Vou usar outra expressão. Sabe o que é mais curioso? Na quarta feira tive uma idéia para um projeto e guess what? Sitcom. Escrevi o projeto e o piloto na quinta e sexta e hoje terminei o segundo tratamento do roteiro. Simplesmente foi. Assim, fácil. E sabe, achei bem engraçado, de verdade. Tá certo que a pegada não é a mesma do que eu estava fazendo, mas ficou legal, ficou bom. Viu como evolui? Acho meu trabalho bom, sou dessas agora. Foi um modo de lidar com a minha crise e funcionou. Talvez eu te dispense e cada vez que tiver que lidar com algo eu faça um projeto novo. Brincadeira. Mas acontece que funcionou de verdade, acho que peguei a minha veia humorística e piloto do outro acabou ficando melhor e não o considero vergonhoso, está bem aceitável até. Quero ver os produtores gargalhando, dizendo que eu sou a criatura mais engraçada desde Andy Kaufmam. Tá, sei que isso não vai acontecer, mas sou uma sonhadora, o que posso fazer? E o Kaufman definitivamente não é um bom exemplo também, mas para mim o Supermouse dele é a coisa mais engraçada da face da Terra. Vou enviá-lo amanhã e que Deus nos ajude. Estou satisfeita com o que escrevi e até gosto da protagonista agora. Precisei de um projeto novo para exorcizar o meu fantasma e poder trabalhar decentemente.

Semana que vem eu volto, eu juro.

A sorte favorece aos audazes, desde que eles tenham um bom roteiro

16 abr

Como foi difícil escrever esse texto.

Fracasso de público e crítica. Não há meio termo. E para mim, é complicado especialmente esse filme porque  sou completamente apaixonada por Alexandre, o Grande. Alexandre era jovem, sonhador, ético, honrado, jamais foi derrotado em uma batalha e conquistou o mundo. Quase um Deus. Quase, porque ele era humano, muito humano. Só os humanos morrem de amor. Só os humanos fogem de si mesmos. Alexandre era totalmente broken. Como disse, humano, o humano mais próximo que chegou da divindade. Bom, a figura Alexandre não é o objetivo desse post, vou parar por aqui. O protagonista é o filme, Alexandre de Oliver Stone.

Ouvi falar em algum lugar que um roteiro bom pode ser estragado por uma péssima direção, mas que eu roteiro péssimo jamais pode ser salvo por uma boa direção. Parecer presunção de roteirista, mas não é. E Alexandre é um excelente exemplo disso. A princípio eu achava que o fracasso de público vinha de um ponto que falarei depois, não falo qual para não estragar a surpresa, e eu até twittei que a principal falha de Alexandre era nós, como sociedade. Só que assistindo e reassistindo o filme umas boas vezes, vi que mesmo o mais leigo entende que tem algo errado, que a história não funciona. Pesquisei as críticas especializadas feitas, e não encontrei nada que se refira ao grande problema do filme, só batiam muito, estão certos, mas eu esperava mais, senhores críticos especializados que recebem para tal. Chega de enrolar. Não sei nem direito por onde começar, e sim, estou falando da apresentação, mas lá vamos nós. E terá spoiller, muito spoiller daqui em diante.

Não me incomoda o filme iniciar de forma não linear e nem a narração do Ptolomeu. Nesse comecinho, essas duas coisas não prejudicaram o drama, o problema delas vem depois. Problemas seríssimos. Alexandre é um herói. O público tem que comprá-lo como tal, senão você perde o personagem e aí já era. E ele é apresentado como um fraco. Vou ignorar a cena em que ele aparece pela primeira vez porque ele nem a protagoniza, é quase um elemento de cena. Ah, mas ela serve para mostrar a relação dele com os pais. Serve, mas eu a cortaria sem dó. A partir  daqui narração já começa a servir de muleta e ao mesmo tempo a pensar pelo público, e esses são os maiores erros que narração pode ter. Oliver Stone conseguiu fazer os dois, ai mesmo tempo. Ela rouba do público a experiência de perceber as coisas quando conta que Alexandre encontrou sua sanidade na amizade na cena em que ele aparece com Heféstion pela primeira vez. Durante o filme é muito evidente a função de Heféstion na vida de Alexandre, deixe o público entender sozinho e não precisa adiantar a informação também. A cena também serve para marcar alguns traços da personalidade de Alexandre, assim como a próxima, a com Aristóteles. Ela também funciona para explicar uma diferença cultural de alguns povos da Antiguidade e da nossa sociedade e eu entendo como necessária essa contextualização. Só na terceira cena o público vê que esse protagonista é de alguma forma especial. Alexandre, ainda criança, doma um cavalo que nenhum homem adulto conseguia. Eu iniciaria com essa cena. As outras duas podem vir muito bem depois e com certeza o púbico, de retinas virgens, compraria o personagem. A explicação da situação cultural que fiz mistério poderia se encaixar em outro take. Passam-se alguns anos e mudamos de ator, agora Alexandre é Colin Farrel, e já logo de cara, vemos um Alexandre, adulto, chorando no colo da mamãe e sendo manipulado pela mesma. A seguinte, no casamento do pai, ele ergue-se, desafia o mesmo, mas é expulso e chamado de bastardo. Mágoa. E então voltamos a Ptolomeu narrando uma parte que jamais deveria ter ficado para depois. O Rei Filipe foi assassinado e agora Alexandre era o Senhor da Macedônia. Como se não bastasse pular a maior mudança da vida do personagem, o vemos na cena seguinte comandando com autoridade e firmeza todos os generais de seu exército para uma guerra onde ele irá capturar o possível mandante do assassinato do pai e já na sequência, a batalha, onde Alexandre mostra toda sua força, liderança egrandeza. Esse é o inicio do segundo ato. Vamos com calma. A contagem das cenas vem a partir de Alexandre chegar a idade adulta.

01 – Ameaçado pelo novo casamento do pai, é manipulado pela mãe e chora no colo da mesma.

02 – Briga com o pai publicamente, ambos magoam-se, é chamado de bastardo e expulso do castelo por Filipe.

03 – Ptolomeu, 40 anos após a morte de Alexandre explica que Filipe foi assassinado e Alexandre agora era Rei e iria atrás do assassino do pai e de quebra, conquistaria a Pérsia.

04 – Alexandre, forte, comanda e planeja com autoridade, dando ordens a generais de seu exército. Generais que serviram a seu pai.

05 – A grandeza de Alexandre, aquele que fazia o impossível, aquele que jamais perdeu uma batalha.

Não dá para comprar que aquele menino, mesmo depois de adulto, que chorou no colo da mãe, foi renegado pelo pai com olhos lacrimejantes agora se tornou um homem tão forte depois do pai ser assassinado sem se entender como foi isso. O motivo de Alexandre ter mudado tanto só aparece no terceito ato, isso é um absurdo no sentido do drama. Por isso a narrativa não linear não funcionou, ela escondeu o essencial, o que o norteia o personagem por toda a sua vida. Oliver Stone sabe o porquê, eu também sei, sabemos porque conhecemos a história, o público não.  Retinas virgens, lembram-se? Erro fatal. Não entendo como alguém que leu esse roteiro deixou passar. Simplesmente não concebo que em Hollywood, em um filme com orçamento de quase 200 milhões de dólares um erro tão brutal tenha acontecido. Imperdoável, para público e crítica.

Antes de entrar no assunto delicado, apesar de não me sentir gabaritada para tal, não tem como deixar passar a batalha de Gaugamela. Fantástica, só isso. Cru, pesada, sanguinária. Uma direção primorosa e fotografia incrível. Melhor cena do filme. Desse e de outros como Gladiador, por exemplo. Nenhuma batalha foi tão épica como essa. Congrats, Oliver.

Quando assisti Alexandre pela primeira vez, no cinema, fiquei muito feliz e surpresa por terem preservado a relação Alexandre e Heféstion. Os dois eram amantes. Sempre foram. Heféstion foi o grande amor de Alexandre. Alexandre morreu de amor por Heféstion. Acho a história dos dois a mais bela e verdadeira história de amor que já existiu. Mas o quê, Alexandre, o Grande, era gay? Não, ele era bissexual, como todos os homens de sua época. Mas sim, ele preferia homens à mulheres. E aqui a explicação que Aristóteles deu na cena que citei. Para os Gregos, o excelência de um relação carnal e afetiva, vinha da troca de conhecimento e sabedoria. Na época, as mulheres não frequentavam escolas, vamos chamar assim. A relação perfeita entre prazer e a troca de conhecimento só poderia ser com outro homem. Relacionavam-se com  mulheres também, precisavam se reproduzir. Essa era a função da mulher. O amor? O verdadeiro amor não era para elas. E isso era totalmente normal. Assim como a pederastia.  Era normal o nobre menino grego ser iniciado pelo seu mestre.  Mas credo, eram todos gays? Que amorais… Lembremos que a nossa idéia de moral vem do Cristianismo, do pecado. Para eles, nada era pecado, era uma outra sociedade, não podemos julgá-la com a nossa ética. Sempre acreditei que o público odiou o filme por causa disso, e em parte pode ser que sim. Admitir um herói, forte, bravo, glorioso com uma relação homoafetiva? Não estamos preparados para isso. Bom, voltemos a trama.

O segundo ato se arrasta. E Alexandre que teve uma vida intensa, tem sua história contada de uma forma chata, longa, muito mais longa que seus 12 anos em guerra. A narração atrapalha mais vezes, a história não é bem construída… Os erros. Aqui há a mudança no personagem. Alexandre quanto mais vai para o Oriente, mais egoísta se torna, sua personalidade muda aos pouco e é representada pelas vestes e maquiagem que ele passa a usar e pelo afastamento de Heféstion, seu sempre norte, com o casamento. Gosto disso, um modo esperto de mostrar que o personagem perde sua raiz, sua essência. Bom, não mais que isso.

O início do terceiro ato é marcado por Alexandre assassinar, in persona, um dos seus mais antigos generais, Clito, homem de confiança de seu pai. Uma cena carregada que mais uma vez não se entende o motivo por causa da narração não linear. Depois de Clito ser assassinado e Alexandre com sangue nas mãos chorar e sofrer, conta-se que ele tinha na figura de Clito um pai. Depois isso é dado ao público. Errado, essa ligação tinha que ser construída durante o filme e não imposta em uma cena. Agora sim, a explicação do porquê Alexandre ter se tornado quem foi, a morte do pai e a conversa com a mãe. Só agora, no terceiro ato.

Chegamos ao fim, ao quase enlouquecimento de Alexandre. Sempre amado e seguido por seu exército, é contrariado e abandonado. O personagem virou um egoísta, só importa com seus sonhos e seus homens percebem. Ele os convence, através da força, a seguir com ele. O fato de seus comandantes terem perdido o respeito pelo seu Rei foi por causa do casamento com a Roxana, uma selvagem para eles. Porque Alexandre casou-se com ela? Ninguém sabe. Alexandre foi uma figura meio inexplicável. E nessa sequência foi plantado o final, o possível assassinato.

Não me incomoda a licença histórica da última batalha com Bucéfalo morto, Heféstion e Alexandre feridos. Isso não é um documentário e não perdeu-se em verdade, apenas otimizou-se o tempo.  Agora o resto é história. Heféstion morre, supostamente, envenenado e Alexandre enlouquece. Morreu de amor, lembram? Aqui fecha-se os mitos que cercaram e assombraram Alexandre por toda a vida. Os mitos que o pai falou a respeito no primeiro ato, numa cena linda. E isso foi incrível no roteiro, os mitos foram muito bem usados e colocados de forma bem sutil. Alexandre passa a não se cuidar, perde o tesão pela vida. E também, supostamente, é assassinado, 8 meses depois da morte do seu grande amor. Ou morre.  É complicado afirmar alguns fatos verídicos sobre Alexandre, todo o material que seus contemporâneos escreveram sobre ele foi perdido em Alexandria. Gosto da admissão final de Ptolomeu no assassinato. Foi amarrado o descontentamento dos que o assassinaram, fez sentido.

Os erros da narrativa não linear, não ela em si, mas os momentos que se escolheu para contar depois. Eram cenas essencias, não poderiam ser deixadas para o terceiro ato. Queria montar o filme de um modo diferente, tirasse as cenas da infância do começo, elas não fazem a menor falta, e as distribuisse durante os outros atos.  Um narrador que atrapalha, que é usado como muleta para suprir erros do roteiros. Esse é o grande perigo de uma narração, cair nessa saída, que é muito fácil e segura. E que seguramente irá acabar com seu filme.  Teimosia de Oliver Stone? Eu aposto que sim.  Nos extras, Oliver diz que tem esse roteiro há mais de 15 anos. Agora, imagina-só o apego desse cidadão. Imagine também você, script doctor, peitar Oliver Stone e dizer que seu amado roteiro tem sérios problemas e precisa ser reescrito. O roteiro que ele escreveu por 15 anos. Complicado. Mas não entendo como niguém fez isso. Ou como investiram tanto dinheiro. Dissessem não. Sem dúvida Oliver Stone foi muito audacioso ao mostrar Alexandre e Heféstion como amantes, e para mim, isso foi genial. A sorte favorece os audazes, como bem disse Virgílio, em Eneida, frase que abre o filme. Desde que eles tenham um bom roteiro.

É isso. Esse foi o filme que contou a história do maior homem que pisou na Terra. A história daquele que jamais perdeu uma batalha, aquele que não pilhava os conquistados, os respeitava, os incorporava ao seu povo os respeitando culturalmente. O primeiro que sonhou com a globalização. O que sonhou e foi guiado por seus sonhos. O que morreu de amor. O maior de todos os Alexandres em um filme muito, mas muito ruim. Um herói queimado por décadas para o cinema.