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Tabela de valores minímos para roteiristas

13 out

Saiu a tabela da Associação de Roteiristas, AR, atualizada com valores para 2012.

Consta na tabela, visando a abertura do mercado, a categoria para desenvolvimento de Bíblias de séries e criação de universos transmidíaticos.

O roteirista e ex secretário do Audiovisual, Newton Cannito é o presidente da AR.

Tabela de AR – valores 2012

Atualização de valores 2012

Valores mínimos sugeridos pela Associação de Roteiristas.

A) SERVIÇOS PARA TV

SERVIÇOS PARA TELEVISÃO
15′ 30′ 60′
Argumento/Sinopse 2.000,00 3.500,00 5.550,00
Roteiro Dramaturgia 3.460,00 5.550,00 10.400,00
Roteiro de Documentário com Pesquisa 3.000,00 4.200,00 6.900,00
Roteiro de Documentário sem Pesquisa 2.000,00 2.700,00 4.800,00
Roteiro de Programa de Variedades 2.770,00 3.500,00 5.550,00
Roteiro de Institucional ou Treinamento sem Dramaturgia 1.700,00 2.770,00 4.200,00
Roteiro de Institucional ou Treinamento com Dramaturgia 2.000,00 4.170,00 6.930,00
Roteiro de Programa Educativo com Dramaturgia 2.770,00 4.170,00 6.930,00
Roteiro de Programa Educativo sem Dramaturgia 2.080,00 2.770,00 4.850,00
Sinopse para telenovela, minissérie e seriado 15.000,00
Roteiro de Programa Corporativo (mínimo de 4 pgms por mês) 1.040,00 por programa

 

PISO SALARIAL MÍNIMO RECOMENDADO para roteiristas em televisão (mensal) por tipo de programa semanal ou diário:

PROGRAMA DIÁRIO SEMANAL
Roteirista Teledramaturgia 7.000,00 5.000,00
Roteirista Programa sem Dramaturgia / variedades 5.500,00 3.500,00

B) SERVIÇOS PARA CINEMA

SERVIÇOS PARA CINEMA CURTA MÉDIA LONGA
Argumento/sinopse 7.000,00
Roteiro Ficção Original* 8.320,00 16.650,00 30.000,00
Tratamento de Roteiro (a partir do terceiro tratamento) 6.930,00
Roteiro Adaptado 5.550,00 15.000,00 30.000,00
Roteiro Documentário* 8.320,00 16.650,00 30.000,00
Scrip Doctoring 7.000,00
Parecer 4.170,00

* OU 5% DO ORÇAMENTO FINAL DO FILME

• A SER NEGOCIADO EM CONTRATO:

  • PARTICIPAÇÃO EM BILHETERIA (2%)
  • DEFINIÇÃO DE NÚMERO DE TRATAMENTOS DE ROTEIROS (ATÉ 3)
  • ESCALONAMENTO DE PRAZOS DE ENTREGA DE MATERIAL (SINOPSE, ESCALETA, PRIMEIRA VERSÃO DE ROTEIRO) E PAGAMENTOS

C) SERVIÇOS PARA OUTRAS MÍDIAS

SERVIÇOS PARA OUTRAS MÍDIAS (celulares, internet, etc) Por Obra
*Roteiro de Dramaturgia p Internet 1.390,00
Roteiro de Programa de Variedades Internet 900,00
Comerciais p Internet (30”) 900,00

*+ 10% DOS VALORES DE PATROCÍNIO E/OU + 12% DE VALOR DE MERCHANDISING.

D) OUTROS :

OUTROS Por Obra
Criação de Bíblias de Séries (argumento da série e da 1ª temporada com 13 episódios) 30.000,00
Criação de universos transmidiáticos (planejamento transmidia para produtos/programas televisivos / se estiver fora da negociação do contrato) 15.000,00

AR.

Roteiristas para Turma da Mônica

18 jul

Todo ano a Maurício de Sousa Produções  seleciona novos roteiristas para escreverem os maravilhosos gibis da Turma da Mônica.

E nesse ano, não será diferente. Estão abertas as inscrições para roteiristas, desenhistas e arte finalistas.

Como teste para roteiro, obviamente, o candidato terá que enviar um roteiro para HQ. No formato de HQ. Com desenhos. Sim, podem tirar seus lápis do armário e mão na massa!

No site não especifica a quantidade de páginas e nem o período para inscrição. Minha sugestão? Corram!

Todas as informações estão disponíveis no site. Boa sorte!

De frente com Robert Mestre dos Magos McKee

13 jul

Entrevista longa e que vale por meio seminário Story, com a autoridade máxima em roteiros, aquele que tudo sabe, o escritor da bíblia sagrada Story, o cara que tocou o terror durante seu seminário em São Paulo no ano de 2010 e ainda chamou os roteiristas brasileiros, todos, de vagabundos, Robert McKee.

Debra Eckerling: Existem componentes básicos para contar uma história convincente?

Robert McKee: Escrevi 500 páginas do meu livro Story para responder essa pergunta. É o mesmo que perguntar quais são os componentes básicos de música ou quais são os componentes básicos da pintura. Determinar o que é básico é muito difícil. Algumas pessoas, por exemplo, acham que o diálogo é um componente básico da história. Mas não em um filme mudo. Não no balé. Existem tantas formas de contar uma história maravilhosa em diferentes mídias e que sem nenhum elementos em comum com outras. Assim, determinar exatamente quais são os elementos básicos depende do meio.

Mas deixe-me tentar responder a essa pergunta fazendo uma definição simples e clara da história em si. História começa quando um evento, quer por decisão humana ou acidente no universo, radicalmente perturba o equilíbrio  na vida do protagonista, despertando no personagem a necessidade de restaurar esse equilíbrio. Para isso, o personagem irá conceber o que é conhecido como um “objeto de desejo,” o que ele sente quer fará sua vida voltar ao equilíbrio. Ele, então, deixará o seu mundo comum, nas várias dimensões da sua existência, para procurar esse objeto de desejo e lutará contra as forças do antagonismo que virão a partir de suas próprias naturezas interiores como seres humanos, suas relações com outros seres humanos, sua vida pessoal e/ou social, e o ambiente físico em si. Ele pode ou não conseguir esse objeto de desejo, e se conseguir, finalmente, ser capaz de restaurar a sua vida a um equilíbrio satisfatório. Que, da forma mais simples possível, define os elementos da história – um evento que lança a vida fora de equilíbrio, a necessidade e o desejo de restaurar esse equilíbrio, o objeto de desejo da personagem, que vem do consciente ou inconscientemente, e as forças de antagonismo em todos os níveis da sua vida que fazem com que ele atinja esse objetivo ou não.

DE : Qual a importância do processo de reescrever?

Robert McKee: É absolutamente crítico. Eu cito no meu livro o que Hemingway disse: “O primeiro esboço de qualquer coisa é uma merda.” O que é difícil para os escritores é reconhecer que 90% do que todos nós fazemos isso, não importa o nosso talento. Nós só somos capazes de escrever com excelência talvez em 10% do tempo. Então, como você vai preencher um roteiro com 100% de excelência? Tudo tem que ter sido experimentado, improvisado. Noventa por cento do nosso trabalho deve ser jogado fora, a fim de finalmente acabar com os 10% precioso de excelência. Se, por exemplo, você escreve um roteiro de 120 páginas com 40 a 60 cenas, e manter cada cena que você escreve, e seu chamado reescrever é apenas parafrasear e reparafrasear o diálogo, isso não é reescrever, é apenas polir. Reescrever significa uma mudança profunda e estrutural no personagem e na história. Isso é reescrita. Se você mantiver o primeiro rascunho de seus 40 a 60 cenas, você pode ter certeza de que, na melhor das hipóteses, 05% daquelas cenas são de qualidade. O resto é uma porcaria. Reescrever não é um trabalho penoso, significa recriar, improvisar e tentar todos os tipos de idéias malucas. Isso é reescrita.

DE: Quentin Tarantino disse uma vez: “O que distingue um artista americano é a sua capacidade de contar uma boa história.” Você concorda?

Robert McKee: Geralmente concordo com Tarantino, mas de forma limitada. Primeiro, não são os norte-americanos, é a tradição da língua inglesa. Em qualquer lugar em que o Inglês é a língua dominante, América, Grã-Bretanha, Austrália, Índia, há uma grande tradição em contar histórias muito ricas. Por outro lado, eu diria que a cultura cinematográfica mais impressionante e criativa no mundo agora está na Ásia, e eles estão contando histórias de suas tradições e culturas e elas são tão convincentes quanto as da língua inglesa. Mas Tarantino exagerou, porque cada grande língua, certamente o idioma espanhol, tem contadores de histórias magníficas, mas há uma tendência fora do inglês, especialmente nas línguas românticas, em colocar mais ênfase sobre o humor do que na emoção. Ou eles colocam mais ênfase em momentos estáticos da vida ao invés de momentos dinâmicos e  consequentemente, a narrativa na Europa é muitas vezes mais aberta, mais temperamental, mais contemplativo, mais intelectual talvez, do que as histórias que são contadas nos moldes Anglo-americano. Mas são generalidades e pode-se argumentar que muitos escritores de fora estão tentando usar a história para explorar aspectos da vida que o inglês ignora. Mas não importa, cada cultura produz obras primas. Assim, a declaração de Tarantino tende a implicar que as histórias contadas em inglês são melhores do que histórias contadas em outros idiomas, e isso não é verdade. Elas são apenas diferentes, não necessariamente melhores.

DE : O contar histórias é uma arte perdida?

Robert McKee: Não acho que é uma arte perdida, mas acho que perdeu energia. A capacidade de contar grandes histórias hoje está viva e bem. É que devido a certas restrições, a tendência hoje é favorecer o espetáculo  a substância. Não apenas no cinema, mas no teatro, as formas mais extravagantes de teatro. O contar histórias já passou por maus períodos como este no passado. Como era verdade há 100 anos, tanto na literatura como no teatro, estamos passando por um período novo, onde a narrativa se atrofia debaixo do esforço de muitos escritores que são atraídos para a superfície e produzem obras que são deslumbrantes na superfície, mas muitas vezes ocas. Por esta razão, acho que a melhor narrativa no mundo de hoje tende a ser na televisão, porque a tela da televisão não se presta ao espetáculo. É pequena, e assim o tiro mais expressivo tende a ser o close-up, e quando você mover a câmera nos personagens eles começam a falar. No melhor da televisão de hoje, e especialmente na América onde estamos vivenciando uma época de ouro da televisão, os dramas que são criados são longos, ricos, profundos, complexos e fascinantes. Acho que uma das razões de televisão estar crescendo na sua influência em todo o mundo é porque na televisão não há sentido em tentar ser espetacular, e os escritores são forçados a voltar para a substância do conflito humano nos relacionamentos, e, como resultado, eles estão a produzir, em geral, o melhor trabalho. Portanto, não está perdida, apenas mudou  de  endereço.

DE : Você usa a expressão “desenho da história” com freqüência. O que significa isso?

Robert McKee: Um evento vem ao longo da vida e o chamamos de “incidente incitante.” Ou por acaso ou por  escolha, ou ambos, é mexido no equilíbrio da vida do personagem. Esse desequilíbrio desperta no protagonista o desejo de colocar a vida de volta nos eixos. Para isso, ele concebe algo que precisa, um objeto de desejo por assim dizer, que sente que irá restaurar o equilíbrio de novo. Poderia haver justiça, poderia estar colocando o bandido na cadeia, ou, como no filme About Schmidt, poderia ser uma razão para viver. Seja o que for, eles buscam isso. A concepção da história é construída a partir desse incidente incitante, quando a vida saiu de equilíbrio, para o clímax quando o equilíbrio é restaurado para melhor ou para pior. Eventos devem ser concebidos de forma progressiva para manter o interesse emocional e intelectual do público por duas horas sem interrupção e entregá-los a uma experiência gratificante. Exatamente como isso funciona, filme, história do filme e história, é infinitamente variável. A tarefa de um bom projeto é a realização de gancho, e do retorno do público. Se isso funcionar, então a história pode estar em um ato ou dez atos, que pode ser mono-enredo ou trama múltiplas, de qualquer gênero.

 DE : Há “regras básicas” para a criação do incidente de incitante?

Robert McKee: O termo “regras básicas” é inadequado quando se fala sobre qualquer aspecto da escrita, inclusive incidente incitante. Como já disse muitas vezes: as formas de arte não têm regras, toda a arte é guiado por princípios. As regras são rígidas. Eles dizem: “Você deve fazê-lo desta maneira!” Princípios são flexíveis. Eles dizem: “Esta forma subjacente a natureza da arte e é convencional na prática. No entanto, pode ser dobrado, quebrado, ficar oculto ou de cabeça para baixo para atender usos não convencionais.” As regras são aplicações objetivas que exigem nenhum sentimento dos personagens da história ou eventos; seu uso se justifica pela sua função tradicional e sua familiaridade confortável para o público. Princípios exigem uma compreensão profundamente subjetiva do efeito de uma técnica para a frente e para trás ao longo do cronograma de eventos de uma história. Um princípio orienta o uso do escritor de seus materiais – motivações, caracterizações, coincidências, configurações e flash-backs/flash-forwards set-ups/pay-offs e semelhantes – em termos de seu efeito sobre ambos os personagens e público. A regra é microscópica, um princípio é macroscópica.

Em termos de incidente incitante, há apenas dois dos seus princípios diversos, Colocação e Efeito estão inter-relacionadas, se influenciam mutuamente, e dependente de sentido subjetivo do autor da função.

Uma colocação,:  O incidente incitante muda radicalmente a vida de um protagonista. Portanto, não desperdice o tempo do público. Traga o incidente incitante para a história o mais rápido possível.

Segunda colocação: Não introduzir o incidente incitante até que ele tenha o efeito emocional e intelectual desejado sobre o público para que simpatize com o protagonista.

Então qual é o momento? Quem pode dizer? Em cada história é diferente. Quanto o público precisa saber da história antes de ser inserido o incidente incitante? Em algumas histórias nenhum, já em outras muito. Como e quando é o público cria empatia com o protagonista? Em algumas histórias imediatamente, em algumas nunca e em outras em algum lugar ao longo do caminho. As respostas a todas estas questões exigem do escritor uma rica compreensão intelectual do universo da história e personagens, bem como uma profunda sensação subjetiva dos sentimentos, texturas e emoções que fluem dentro da história e para fora, para o público. Não existem regras. Todos os artistas que queiram escrever deve parar de pensar dessa maneira.

DE : Quais são os fundamentos principais na definição do enredo da história?

Robert McKee: Por “definição”, você quer dizer por gênero ou por criação? A trama poderia ser definida por gênero, o que significa dizer que define a história por elementos que compartilham com outras histórias, ou um enredo pode ser definido pelos elementos dentro de si. Mais uma vez, vou destacar que a expresssão “chave essencial” é inadequado na arte, porque todos os elementos de uma forma de arte são mutuamente essenciais. Não é como se, digamos, um escritor pudesse tornar cada elemento de sua história primoroso, com exceção do diálogo, que incomoda  o público como as unhas em um quadro negro, e depois esperar que o mundo vá perdoá-lo porque tudo o que ele queria era qualidade. Vou lhe dar uma pequena lista de três elementos da trama que vem à mente, em nenhuma ordem particular de importância, deixando de fora dezenas de outros: gancho, substância, clímax. Estes elementos vêm em forma de perguntas o escritor pede-se como eles funcionam:

Gancho: O gancho do incidente incitante envolve a curiosidade do público e faz com que em suas mentes apareça a grande questão dramática: “Como isso vai acabar?”

Substância: A constante busca do protagonista e como segurar o público?

Clímax: Responder a todas as perguntas do público, do porquê e como?

DE : Quais são as questões críticas que um escritor se pergunta antes da elaboração de uma história?

Robert McKee: Além da imaginação e percepção, o componente mais importante de talento é a perseverança – a vontade de escrever e reescrever em busca da perfeição. Portanto, quando a inspiração desperta o desejo de escrever, o artista imediatamente pergunta: essa idéia é tão fascinante, tão rica em possibilidades, que  quero passar meses, talvez anos, da minha vida em busca da sua realização? É esta história tão emocionante que vai fazer eu me levantar todas as manhãs com fome de escrever? Será que essa inspiração me obrigar a sacrificar todos os outros prazeres da vida em minha busca para aperfeiçoar a minha narrativa? Se a resposta for não, encontre uma outra ideia. Talento e tempo são requisitos para um escritor. Então porque entregar sua vida a uma ideia que não vale a pena?

DE : Como você se sente sobre as tendências que afetam a história e o ofício?

Robert McKee: As pessoas vêm até mim o tempo todo falando sobre as tendências do cinema e como o futuro da história está indo para a tecnologia 3D e realidade virtual, os jovens, especialmente, porque eles estão sempre fascinados com a nova tecnologia. Mas eu não. Eu sei que não importa o que a tecnologia é, se eles não têm nada a dizer, e eles não sabem como dizer tudo o que eles têm a dizer. Me preocupo com a qualidade da narrativa que inspira o trabalho. O meio ou a tecnologia que usam não importa. Se o futuro da história está em riscar fotos na calçada, isso realmente não importa. O que importa é a forma, o conteúdo, a inspiração e talento do artista.

DE : Você recentemente expandiu o Seminário Story de três dias a quatro dias. O que os alunos podem esperar?

Robert McKee: O novo quatro dias, formato 32-horas faz quatro coisas importantes: um, ele adiciona temas importantes para a palestra como a adaptação de romances e peças de teatro para a tela, as principais diferenças em escrever para televisão e para o cinema, a teoria sobre os títulos, a ironia em planejar e afins. Dois, ele me dá tempo para entrar com muito mais profundidade sobre temas convencionais. Três, que permite muito mais tempo para o face a face, entre eu e meus alunos. Quatro, é mais civilizado em termos de seus intervalos dentro da palestra e sua ruptura da noite para jantar e dormir.

DE : Será que uma história precisa sempre de ser crível? O que a torna crível? 

Robert McKee: Sim. O público deve acreditar no mundo de sua história. Ou, mais precisamente, na famosa frase de Samuel Taylor Coleridge, o público deve suspender voluntariamente a sua descrença. Este ato permite ao público acreditar temporariamente em seu mundo como se fosse real. A magia de como se transporta o público do seu mundo privado para o seu mundo ficcional. Na verdade, todos os belos efeitos e satisfatórios de uma história – suspense e empatia, lágrimas e risos, significado e emoção – estão enraizados no grande quanto se acredita. Mas quando o público não acredita, quando argumentam a autenticidade da história, que romper esse mundo. Em um dos casos as pessoas se sentam em um teatro, mal-humoradas com raiva, embebido em tédio, no outro, eles simplesmente atiram o seu romance no lixo. Em ambos os casos, a audiência falará mal de você e de sua escrita, causando o dano óbvio na sua carreira.

Tenha em mente, entretanto, que credibilidade não significa atualidade.

Os gêneros de realismo não, como Fantasia, Sci-fi, Animação Musical, e os mundos inventam histórias que nunca poderia existir de verdade. Em vez disso, obras como Matrix e Procurando Nemo criam suas próprias versões especiais da realidade. Não importa o quão bizarro alguns desses universos possa ser, eles são internamente fiéis a si mesmos. Cada história estabelece suas próprias regras de como as coisas acontecem, os seus princípios de tempo e espaço, de ação física e comportamento pessoal. Isto é verdadeiro mesmo para obras de avant-garde, a ambição pós-moderna que, deliberadamente, chama a atenção para a artificialidade de sua arte. Não importa o que sua história de ficção seja, desde que sejam estabelecidas regras. Assim o público irá seguir livremente seu universo como se fosse real – desde que as leis de ação e comportamento nunca sejam quebrados.

Portanto, a chave para a credibilidade é a consistência interna. Seja qual for o gênero, a consistência é a sua auto-validação. Você deve dar a definição de sua história no tempo, lugar e sociedade o suficiente para satisfazer a curiosidade natural do público sobre como as coisas funcionam, e então sua narração deve permanecer fiel às suas próprias regras. Depois de ter seduzido o público a acreditar na sua história como se fosse verdade, você não deve violar suas próprias regras. Nunca dê ao público uma razão para questionar a veracidade de seus eventos, nem a duvidar das motivações de seus personagens.

 DE : Como você projeta um final que mantém as pessoas ligadas?

Robert McKee: Por “um final que mantém as pessoas ligadas” você quer dizer o gancho no final de um episódio de série que faz com que as pessoas queiram saber o que vão assistir na na semana seguinte? Ou você quer dizer um clímax história que leva o público a elogiar sua brilhante história para amigos e familiares?

Se for o primeiro, sei dois métodos para ligar e manter a curiosidade do público ao longo de um período de tempo.

A. Criar um Cliffhanger. Iniciar uma cena de forte ação, cortar ao meio, deixar o público em suspense, e em seguida, concluir a ação no início do próximo episódio. 24 horas faz isso brilhantemente semana após semana.

B. Criar um ponto de virada com o poder e impacto de um clímax. Uma virada naturalmente, levanta a questão sobre o que “o que vai acontecer a seguir?” e mantem o interesse sobre os comerciais em um único episódio como em Law and Order, ou durante a semana entre os episódios de Sopranos.

Já no último caso, a satisfação  com o clímax da história tendem a ser aqueles em que o escritor guarda uma última carta na manga. Em um súbito clarão de compreensão, o público percebe uma verdade profunda que foi enterrada sob a superfície da história. Toda a realidade então é instantaneamente reconfigurada. Essa percepção não só traz uma enxurrada de novos entendimentos como também uma emoção profundamente gratificante. Como um exemplo recente: o clímax soberbo de Gran Torino.

 DE : Quais são as carências que se encontra nos roteiros?

Robert McKee: Três me saltam à mente:

Cenas maçantes. Por razões de conflito fraco ou talvez de formações pobres e batidas de comportamento, a cena cai por terra. O valor dos personagens em uma história é exatamente o que está em cena. Atividade não são ações dramáticas em uma história. Em suma, nada realmente acontece, nada muda.

Exposição estranha. Para conveniência do escritor, os personagens dizem uns aos outros o que todos já sabem. Este moviemnto falso faz com que o público perca a empatia.

Clichês. O escritor reciclar os mesmos eventos e personagens que vimos inúmeras vezes antes, pensando que se ele ou ela escreve como outros escritores, também vão contra o sucesso.

 DE :  No Seminário Story você diz que a melhor maneira de ter sucesso em Hollywood é escrever um roteiro em que você se supere. Se você tem um ótimo roteiro, como fazer com que seu roteiro chegue as mãos certas?

Robert McKee: Se você escreve um roteiro péssimo, você não tem nenhuma chance. Mas se você criar um trabalho de superação, Hollywood ainda é um filho da puta. Porque a menos que você pode tenha contato com um ator ou esteja na lista de um diretor top, você precisa de um agente. E a primeira coisa a entender sobre agentes literários é que, embora eles possam ou não gostar de você, eles têm carreiras. Vender roteiros é como colocar gasolina em seus BMWs. Como todo mundo, eles querem  dinheiro para pagar as contas. Então eles têm pouca ou nenhuma paciência para passar meses ou até anos apresentando o seu trabalho para dezenas de estúdios, e esperar para sempre uma resposta. Eles querem ler um trabalho que eles possam vender rápido. A qualidade da escrita importa muito, mas o que qualquer agente quer sentir é se novo, clichê, arte,  comercial. E quem é que pode afirmar se isso está certo? Sorte é uma grande parte da vida de um escritor.

[Mas] para começar, primeiro alugue todos os filmes recentes e programa de televisão que é de alguma forma parecido com seu roteiro. Anote os nomes nos créditos da escrita. Chame o WGA, para pedir o escritório de representação e descobrir quem são os agentes desses escritores. Isso cria uma lista de agentes que vendem produtos muito parecidos com o que você escreveu. Em seguida, vá para a Amazon.com e compre The Hollywood Creative Directory e encontre os endereços desses agentes. Não ligue para eles. Em vez disso, escreva uma carta intrigante sobre você e sua história e envie para cada agente em sua lista. Espere, Deus sabe quanto tempo, para ouvir de volta. Se a sua carta cativa a curiosidade, e se você enviar um número suficiente delas, as chances são de que alguns agentes vão realmente querer ler o que você escreveu. Quando isso acontecer, rezarei para que seu trabalho seja de qualidade.

DE : Para um escritor iniciante, o maior desafio parece ser sempre o início. Que conselho você daria?

Robert McKee: Por início você quer dizer escrever o capítulo de abertura ou apenas entrar em pânico? Neste último caso, você está bloqueado pelo medo. Sugiro então que A Guerra da Arte de Steven Pressfield. Vai ajudar a encontrar a coragem para enfrentar a página em branco. Se o primeiro é o problema, primeiras cenas ou capítulos iniciais são geralmente descoberto depois de ter concebido o seu incidente incitante.

Se você sentir que seu incidente incitante, sem qualquer conhecimento prévio de biografias de seus personagens ou sociologias, imediatamente prender o leitor, então use-o para começar a história. Por exemplo, Kramer vs Kramer começa quando a Sra Kramer abandona o Sr Kramer e o filhinho deles.

Se você sente que precisa fornecer uma exposição sobre a história, personagens e ambiente para que se entenda a importância do incidente incitante, então esta exposição – bem dramatizada, é claro, talvez até mesmo a construção de um subplot – deve ser o começo.

O princípio é: Conte o incidente incitante o mais rápido possível, mas não sem que ele leve o público a criar empatia e curiosidade. Encontrar o posicionamento perfeito do incidente incitante é a chave para iniciar qualquer história.

A original aqui.

A Marginalização “às avessas” e nossa conivência

26 jun

Quando, ainda adolescentes, nos bancos das escolas, aprendemos sobre o “Parlamentarismo às Avessas”, ocorrido em dado momento da história de nosso país, costumamos rir, e atribuir a culpa desta “adaptação” política risível, a alguma eventual “herança genética”, de nossos, muitas vezes desprestigiados, “descobridores”.

Ora, eu diria, que hoje, vivemos um momento de “marginalização às avessas” e cuja culpa (feliz ou infelizmente) não podemos atribuir a outrem, que não a nossa própria conivência.  Gostaria aqui, de abordar dois lados, desta deplorável situação, porém, antes disso, quero esclarecer: Sou alguém normal que tem TV, rádios, geladeira… enfim, todo o necessário para ser enquadrada pelas pesquisas de mercado como “classe C” – rótulo que até pouco tempo atrás em nada me incomodava! Porém, na medida em que se ouve, cada vez com mais frequência, o infeliz: “popularizar por conta da nova classe C”, começo a sentir arrepios, e a gritar, desesperadamente – “Não me ponham nesse balaio de gatos!!! Me joguem pra baixo, pra cima, de escanteio… mas não me confundam!!!” Por favor, vamos pensar (acreditem, faz bem, tudo que não é usado, corre o risco de atrofiar).  Já perceberam que está em moda “o vazio”, o “brega”, o “nada a acrescentar”?

Estamos sem dúvida caminhando para uma tentativa de se “nivelar por baixo”. Aparentemente as emissoras de televisão, passaram, na luta pela audiência, a ignorar que ainda há, no país, outras classes (incluindo uma C pensante), que estão sendo totalmente marginalizadas.  Acho que não está longe o dia em que se ter em casa, um aparelho de TV seja motivo de vergonha, seja um “assumir que não sou pensante”! Será que deixamos de ter direito a lazer, ou a ter que nos “conformar” com migalhas, cada vez mais raras? (cabe aqui ressaltar, não tenho TV a cabo, portanto, me refiro às abertas).

Também, até onde sou capaz de entender, ascender é crescer, subir! Não poucas vezes, na minha infância ouvi coisas como “o fulano lutou para melhorar de vida”! Podem me dizer então, por que o fulano que venceu, “ascendeu” teria se tornado um completo imbecil? Por acaso enquanto parte da classe D ele tinha um “tradutor” para explicar a ele o que se passava? Ou será que esta proposta atende a outros interesses? Pior!!! E a nossa postura, enquanto autores e seres pensantes? É triste, mas não absurdo se falar em “prostituição intelectual”… Então, talvez seja possível entender – não aceitar, mas entender – o que leva um criador a “parir um rato”, mas, me parece no mínimo digno de reflexão se pensar que estes ratos não vingariam, se enquanto público, nos recusássemos a alimentá-los com nossa audiência!

Gente, eu amo assistir TV, e quero ter direito a assistir coisa boa! Eu amo escrever, e quero ter o direito de escrever algo com conteúdo!!! Se você compartilha dessa opinião, não fique mudo, lembre-se do famoso (e esquecido):

“Na primeira noite eles aproximam-se

e colhem uma flor do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite,

já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo o nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada”

(Eduardo Alves da Costa – Trecho de “No caminho com Maiakóviski”)

Sobre o medo. De novo. – Sessão 04

10 jun

Encontrei esse texto do ano passado no ótimo site Scripped e achei que valia a pena traduzir. Farei considerações ao final.

Algumas coisas sobre “o medo de finalizar um projeto” de um roteirista

Por Britt J.

O medo de terminar um roteiro pode aparecer de repende, de forma ilógica justamente no momento em que a sua criatividade está fluindo.

Diferente de um bloqueio criativo, essa fobia costuma manifestar-se de modo crônico e oposto ao sentimento de frustração ou ao da capacidade de lutar. Ela pode durar semanas ou meses, ou até que seu cérebro ferva de modo que comece a parecer com a sopa que você toma no jantar.

Você já se perguntou porque irracionalmente se auto-sabota? E também, porque se auto-sabota geralmente em seus projetos mais promissores?

Gostaria de dizer que esse processo é lógico e racional. Ele é bem mais simples do o famoso medo do fracasso.

Se você é um roteirista que acredita que tenha uma chance real de ter sucesso no mercado, esse sonho se tornou tão incrível que lhe proporciona conforto ao longo de sua carreira. Você pode vê-lo como uma carta na manga, quando fala-se de um plano de carreira, aquilo que você usará quando tiver já um nome no mercado ou sua última tentativa. E aí sim, você o escreveria a qualquer custo.

Um modo de acabar com esse medo, é cair na lógica e perceber que a probabilidade de um real sucesso comercial é bem menor do que a fama e o sucesso que aguardam o seu incrível roteiro logo ali, na esquina dos seus sonhos.

No sonho, a certeza de um final feliz é de 100%, então porque motivo você trocaria isso pela real possibilidade de que exista uns 25% de chance de que dê certo? Por isso é tão lógico a escolha de sonhar ao invés de executar.

A melhor maneira de sair desse impasse é desafiar essa lógica e entender que um resultado não excluí o outro. E por isso digo, depois de um esforço sincero para transformar seu sonho em realidade e mostrar seu projeto completo para produtores e emissoras, e não der certo logo na primeira tentativa, não significa que o sonho tenha acabado.

Significa que nesse momento, esse projeto em especial, nessa produtora ou emissora, não funciona. Mas o seu sonho, continua são e salvo.

Como Steven Pressfield em seu livro The War of Art, os sonhos mais específicos emergem de dentro de nós por algum propósito mais profundo, mais significativo. Podem ser vistos como marcos pessoais de nossos chamados mais intímos. E eu acredito que isso é o que torna nossos sonhos indestrutíveis, a menos que nós escolhamos destruí-los.

Você precisa perguntar porque sonha com escrever e vender um roteiro e não com, por exemplo, projetar uma máquina. Não é por acaso, provavelmente exista uma razão por trás.

Contrastando com todos as chances reais de fracasso, como má direção, má edição, marketing inadequado, e assim por diante, seu sonho de sucesso mantém-se em um nível de indestrutibilidade e, ironicamente, um nível maior de “realidade” do que todos esses fatos do mercado possa apresentar.

O sonho é um presente que jamais poderá ser tirado de você. Não importa quantas vezes digam não, a verdade é que o seu sonho é maior que a vida, e está seguro dentro de você. Desde que você deixe. Mas você o deixará. caso contrário nunca teria sonhado. Ao contrário das falsas deadlines impostas por você mesmo para concluir o projeto antes de da-lo como fracassado, o tempo para o sonho é infinito.

O segredo é aceitar que seu sonho de ser roteirista é indestrutível e ao mesmo tempo concluir o projeto. Aceitando esse fato verdadeiramente, a essência do medo de terminar o projeto gradualmente será uma barreira a menos para ser enfrentada.

O texto original em inglês.

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Esse texto tem um tom bem de autoajuda e não sei se isso me agrada. Mas de vez em quando é bom ouvir que tudo vai dar certo e que os monstros que te assombram são apenas imaginários e se você acender a luz eles somem.

Uma curiosidade sobre o lidar com o primeiro não. Matthew Wainer, roteirista americano, levou 4 anos de nãos com sua série de baixo do braço, batendo de porta em porta em Hollywood. Ninguém queria.  4 anos de não para que chegasse o sim. Qual era o projeto? Mad Men. Pois é.

Tabela de valores mínimos de serviços para roteiristas

9 jun

Existem muitas dúvidas na hora em que alguém pede um orçamento para um roteirista e quase nenhuma regulamentação referente ao valor de cada serviço.

No site da Associação de Roteiristas, até pouco tempo atrás existia uma tabela com valores. Era uma tabela de 2008, se não me engano, e esta desatualizada, mas acredito que funcione para uma base de cálculo.

A) SERVIÇOS PARA TELEVISÃO

SERVIÇOS PARA TELEVISÃO 15′ 30′ 60′
Argumento/Sinopse

1.500,00

2.500,00

4.000,00

Roteiro Dramaturgia

2.500,00

4.000,00

7.500,00

Roteiro de Documentário com Pesquisa

2.200,00

3.000,00

5.000,00

Roteiro de Documentário sem Pesquisa

1.500,00

2.000,00

3.500,00

Roteiro de Programa de Variedades

2.000,00

2.500,00

4.000,00

Roteiro de Institucional ou Treinamento sem Dramaturgia

1.500,00

2.000,00

3.000,00

Roteiro de Institucional ou Treinamento com Dramaturgia

2.000,00

3.000,00

5.000,00

Roteiro de Programa Educativo com Dramaturgia

2.000,00

3.000,00

5.000,00

Roteiro de Programa Educativo sem Dramaturgia

1.500,00

2.000,00

3.500,00

Roteiro de Programa Corporativo (mínimo de 4 pgms por mês) 750,00 por programa

PISO SALARIAL MÍNIMO RECOMENDADO
para roteiristas em televisão (mensal)

PROGRAMA DIÁRIO SEMANAL
Roteirista Teledramaturgia

5.000,00

3.500,00

Roteirista Programa sem Dramaturgia

3.000,00

2.500,00

B) SERVIÇOS PARA CINEMA

SERVIÇOS PARA CINEMA CURTA-METRAGEM MÉDIA-METRAGEM LONGA-METRAGEM
Argumento/sinopse

5.000,00

Roteiro Ficção Original*

6.000,00

12.000,00

20.000,00

Tratamento de Roteiro

5.000,00

Roteiro Adaptado

4.000,00

10.000,00

15.000,00

Roteiro Documentário*

6.000,00

12.000,00

20.000,00

Scrip Doctoring

5.000,00

Parecer

3.000,00

* OU 5% DO ORÇAMENTO FINAL DO FILME

• A SER NEGOCIADO EM CONTRATO:

PARTICIPAÇÃO EM BILHETERIA (2%)

DEFINIÇÃO DE NÚMERO DE TRATAMENTOS DE ROTEIROS (ATÉ 3)

ESCALONAMENTO DE PRAZOS DE ENTREGA DE MATERIAL (SINOPSE, ESCALETA, PRIMEIRA VERSÃO DE ROTEIRO) E PAGAMENTOS

C) SERVIÇOS PARA OUTRAS MÍDIAS

SERVIÇOS PARA OUTRAS MÍDIAS (celulares, internet, etc) Por Obra
*Roteiro de Dramaturgia p Internet 1.000,00
Roteiro de Programa de Variedades Internet 600,00
Comerciais p Internet (30”) 500,00

*+ 10% DOS VALORES DE PATROCÍNIO 
E/OU + 12% DE VALOR DE MERCHANDISING.

Sobre o Medo – Sessão 01

18 abr

Lendo o artigo incrível do roteirista, guionista, português João Nunes sobre a procrastinação, ficou muito claro e óbvio para mim porque ás vezes é tão difícil abrir o Final Draft ou o Pages. Preguiça? Não, medo meus caros, medo. E o João não apenas levanta a questão, como bota o dedo na ferida.

“Medo de falhar, medo de ficar aquém do esperado, medo de desiludir – a nós e aos outros” disse João.

Sobre falhar, todos nós iremos, cedo ou tarde. Ou cedo e tarde também. Vai acontecer e já aconteceu com todo mundo. Você vai ter chance de corrigir seu erro e mostrar que você é um bom roteirista? Nem sempre, sejamos sinceros, quase nunca na verdade. Não estou falando de que nunca mais você vai trabalhar, mas o mercado é exigente e existe muitos roteiristas disponíveis. Tenho uma falha horrenda, vinha de um trabalho que deu um problema imenso e fiquei traumatizada com o gênero, achei que não era capaz de escrever. E me apareceu esse outro logo depois, o mesmo gênero. Eu falhei e o trauma foi elevado a décima potência. Foi uma falha épica, tenho vergonha daquelas páginas que escrevi. Dia desses encontrei uma das pessoas envolvidas no trabalho em uma rede social e ele não lembrava direito e me reapresentei. Conversámos bem até essa hora. Depois que eu relembrei meu fracasso homérico, ficamos sem graça, claro, e a conversa morreu. Ele vai me chamar para outra coisa? Claro que não. Paciência, acontece. Ás vezes você e o diretor ou produtor não estão afinados, ás vezes ninguém sabe o que quer na verdade ou você erra mesmo. Não vou usar o clichê de que falhas são essencias porque só aprendemos com elas. Não sei vocês, mas eu aprendo bem mais com as séries, filmes e livros. Pode ser que você não está pronto, simples. Precisa de mais estudo e de vivência. É engraçado eu falar em vivência porque sou jovem, tenho 28 anos e 3 e meio de carreira. Carreira no drama? 1 ano e meio. Meu, só um ano e meio. Agora consigo enxergar e entender isso. Ano passado, sofria com um projeto. Queria que ele fosse tão bom quanto Sopranos e Mad Men. Bati a cabeça por meses até que um dia assistindo aos extras da primeira temporada de Sopranos, entendi que  não tenho a vivência e o respaldo do David Chase. Nem a do Matthew Weiner, que alias, levou anos de nãos com Mad Men  atê vende-lo e ser premiado, merecidamente, e tudo mais. Depois desse insight, ou de cair na realidade, o trabalho melhorou imensamente. Não o terminei ainda, mas isso é assunto para outro post, ou melhor, sessão.

Ficar aquém do esperado, tema fácil e que vou falar em uma linha. Se você esta esperando tapinhas nas costas, confetes, congratulações e ser amado, acho melhor escolher outra função no audiovisual. Sem mais.

Quanto a desiludir e aos outros, tente não fazer isso! Simples? Não. E aqui acho que entra um pouco do que eu falei sobre reconhecer que não está pronto. Não estar pronto ainda. Se você se julga abaixo das expectativas, corra atrás, pesquise, estude, escalete coisas parecidas com o seu trabalho até morrer. Agora, quem disse que o outro tem essa real expectativa sobre você? Você e o seu ego, é claro. Acabei de dizer que queria criar um Sopranos misturado com Mad Men. Quer dizer, a humildade passou longe aí, queria fazer uma obra prima e me julgava capaz quando comecei. Menos, bem menos. Também não é que você vai fazer qualquer coisa só porque não é um gênio. Aliás, alguém ainda quer ser gênio? Mesmo? Preocupe-se em fazer o seu melhor e não o melhor de quem quer que seja. Estou muito sábia e cagando regra sobre isso quando  nesse momento estou com um projeto incrível e uma oportunidade que todos os roteiristas que conheço arrancariam um braço para tê-la e não escrevo o que é preciso porque não quero decepcionar a pessoa que me propôs. Casa de ferreiro, já sabem. Agora você foi lá, fez o seu melhor e mesmo assim estão exigindo mais e cada vez mais e você não quer decepcionar, isso tem um nome: vida. Não sabe trabalhar sobre pressão? Você vai sofrer muito, ter ataques de nervos e quem sabe até enlouquecer.

Decepcionar a si mesmo, se você tem um ego como o da média, lá no céu, vai acontecer e muito. Passei por isso, me intitulei incapaz de escrever, uma verdadeira fraude, uma merda mesmo. Teve dias que nem ligar o notebook e abrir o Final Draft eu tinha coragem. O motivo era interno, a famosa crise criativa. Me curei porque um trabalho muito bom caiu no meu colo. Caiu mesmo porque nessa época eu nem tinha vontade de ir atrás de nada. Terapia de choque. Parei com o ” aí eu não sou talentosa, eu não sei escrever”. Talento? Ok, 10%. E eu tenho esses 10%. Agora o resto, pare de choramingar e escreva. Quanto mais você escreve melhor você fica, não tem outro modo. Vão sair coisa horríveis? Claro, mas depois melhoram.

O João não falou sobre um medo que eu vejo em muitos amigos meus. E em mim, claro. Medo de que as coisas dêem certo. A pior coisa que pode acontecer a um sonhador, desses bem românticos, é que os sonhos se realizem. Porque daí ele vê que o sonho não é tão perfeito, que o mundo que ele tanto queria não é cor de rosa. E como lidar com isso? E também o que ele sonhará agora? Era isso? Sim, era isso. É foda. Roteirista não é sonho, é vida real, é um trabalho e ás vezes é muito duro. Mas vale cada noite sem dormir, lhes garanto. Aos que estão na transição de uma profissão para o roteiro, percam as ilusões e trabalhem mais no que vocês realmente querem. Dediquem-se ao invés de ficarem lamentando sobre a horrível sorte de ter um trabalho que não gostam. Eu sei que é difícil abrir mão do status quo, mas se você quer mesmo, depende de você. Você quer isso mesmo? Tem certeza? Então vai, filho! E mais uma vez, acabe com suas ilusões. Sério isso.

Não sei se terminei o texto falando sobre as mesmas coisas do começo e não vou editá-lo. São pensamentos crus que assolam meus amigos roteiristas e a mim. Não sei se terá sentido para quem ler. Alguém vai ler? Quanta pretensão. Será uma sessão nova nesse blog e não me preocuparei com nexo em nada. Falando em medo, levei 3 meses para ter coragem de botar esse blog no ar. Medo de falar besteira sobre roteiro e me queimar no mercado, medo de que as pessoas não me achassem tão inteligente assim, medo de não saber escrever um post, afinal é totalmente diferente de roteiro. Mas o enfrentei. E já que toquei no assunto, vou criar vergonha na cara e mandar o material que me pediram.

Mesa de Discussão sobre Dramaturgia e o Reconhecimento da Profissão com Lauro César Muniz

12 abr

A SP Escola de Teatro abrigará um debate com o foco em ” Dramaturgia e Considerações  Sobre o Reconhecimento Legal da Profissão”.

Os convidados para a mesa são o ator, dramaturgo e Diretor Executivo da SP-Escola de Teatro, Ivam Cabral; o diretor Aderbal Freire- Filho; a presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão de São Paulo, SATED, Ligia de Paula e o autor e dramaturgo Lauro César Muniz.

O debate será mediado pela jornalista, dramaturga e coordenadora do curso de Dramaturgia da SP-Escola de Teatro, Marici Salomão.

O foco, obviamente, será no dramaturgo e nas dificuldades da profissão, que não devem ser tão diferente das dificuldades de um roteirista. Considero totalmente válida e pertinente a discussão e estarei presente.

A Mesa de Discussão acontecerá na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, localizada na Avenida Rangel Pestana 2401,  no sábado, dia 14 de abril, das 10 as 13 horas. A entrada é franca.

Quais são suas manias?

28 mar

Conheci nessa semana o blog do Michel Laub e a categoria de posts Escritores e Manias. Recomendo a leitura. Depois de descobrir as manias de alguns colegas, comecei a pensar se tenho alguma. A princípio não encontrei nenhuma e me senti muito normal. Pensei mais um pouco.

Quando começo um trabalho dramático, de curta a série, preciso fazer a estrutura em folhas de papel sulfite e colá-las na parede da minha sala. Já tive a sala toda enfeitada por papéis, fazendo com que a minha casa pareça bem estranha ás vezes. Tenho que visualizar a história por completo e só consigo se ela estiver assim. No computador não dá. Depois disso, faço uma bonita e colorida tabela de Excel, sim, tabela de Excel, mais completa que as folhas penduradas na minha parede.

Antes de passar para o texto, conto a história para mim mesma e a gravo em um gravador digital. Sempre surgem idéias nessa hora. Mas não faço isso olhando para a tabela ou para as folhas, gravo enquanto coloco roupa na máquina de lavar, enquanto me maquio para sair. É muito engraçado me ver no espelho falando sozinha como falo com as pessoas, gesticulando e tudo mais. Ás vezes ando pela casa, com o gravador em uma mão, gesticulando com a outra e falando, falando e falando. E me faço perguntas e eu mesmo as respondo, claro. Meu cachorro adora essa fase, não tira os olhos de mim.

Na hora da escrita propriamente dita, primeiro preparo um bom café, bem forte. Encho uma xícara imensa, esvazio o cinzeiro e os apoio, junto com o maço de cigarros, no braço direito da minha poltrona. O notebook fica no esquerdo. Vou bebendo o café aos poucos, ele esfria. Bebo o café preto forte gelado então. Quando o cinzeiro se enche com cinza e pontas de 5 cigarros, o esvazio. Sempre quando chega ao número 5, nem antes e nem depois.

Quanto ao horário, prefiro trabalhar a noite, depois das 10 para ser mais específica. Viro tranquilamente a madrugada e com certeza produzo muito mais nesse horário. Só que isso nem sempre é possível. Como todo mundo, tenho atividades que precisam ser feitas em horário comercial e também a minha saúde não aguentaria por muito tempo a rotina de trocar o dia pela noite. Gosto de trabalhar também quando acordo, não quis dizer pela manhã porque nem sempre acordo pela manhã. Não sei por quanto tempo escrevo até almoçar, depende da dead line, da quantidade de coisas que tenho no momento. O ritual é o mesmo, café preto na xícara imensa junto ao cigarro e cinzeiro no braço direito da poltrona.

Se escrevo antes do almoço, reviso pela noite. Se escrevo a noite, reviso depois que acordo. Deixo o material dar uma descansada para voltar a vê-lo. Gostei da “dica” do Antonio Prata, que imprime o texto para revisar. Concordo plenamente que o Final Draft, o Word e o Pages misteriosamente escondem erros tolos de português. Vou testar desse modo. Também não os enxergo enquanto escrevo esse post e nem quando peço para visualizar o artigo antes de publicá-lo. Caso haja algum erro, só o perceberei depois de publicado, quando o reler.

Ao contrário da maioria dos escritores dos artigos, não consigo escrever no silêncio porque ele me distraí. Preciso do barulho mecânico da TV. Não pode ser música, tem que ser a TV. Algumas vezes a TV normal, qualquer coisa que esteja passando naquela hora ou então se o trabalho tem referências como filmes ou séries, coloco-os no dvd e os deixo passando. Como moro sozinha e trabalho em casa, ter pessoas ao redor na hora do trabalho é raro, mas se vou para outro lugar ou se tenho parceiros, também não me atrapalham, podem conversar tranquilamente, que apenas escutarei uma murmúrio sem ter idéia do que se trata.

Não costumo fazer escaletas muito detalhadas quando trabalho sozinha, mas uso o gravador. E falando, naquele mesmo esquema, surgem diálogos, detalhes da cena e outras coisas.

Também não temo diante da página em branco do Final Draft. Gosto dela. A única coisa é que ao contrário do Pages, odeio bagunçar o Final Draft. Então escrevo as cenas em ordem e sem fazer anotações. Sei lá, devo o achar meio sagrado.

Quando dou uma travada e não consigo sair de qualquer coisa que seja, saio para dar uma volta a pé por uma hora ou mais. Sento em algum café, observo os lugares e as pessoas mas sem ficar pensando no trabalho, descanso. Volto para casa a pé e sempre por outro caminho. Ou então, uma coisa bem de mulher, faço as unhas. Primeiro penso na cor, aí escolho entre os milhares de tons da tal cor, tiro o esmalte antigo, tiro as cutículas, lixo as unhas e as pinto, com muito cuidado para não borrar. Só volto ao trabalho depois do esmalte secar.

Tenho um escritório em casa. Escolhi o apartamento que moro porque tinha uma peça para funcionar como escritório. Curiosamente não consigo trabalhar lá, escrevo na sala e reviso no meu quarto, deitada na cama com o notebook apoiado nas pernas. Vai entender.

Bom, tudo isso acontece em condições perfeitas de tempo, pressão e umidade do ar. Na grande maioria das vezes, sem o glamour e principalmente sem tempo, me sento na minha poltrona, com o café, cigarro e cinzeiro do lado direito, antes do almoço, depois e a noite e simplesmente escrevo. Sem mais. Há uma coisinha chamada dead line que precisa ser cumprida sem atraso. Ponto.

E você, quais são suas manias?

Edital Para Desenvolvimento de Projeto da Prefeitura de São Paulo

13 mar

A prefeitura de São Paulo lançou 5 editais para o audiovisual, entre eles, um destinado ao desenvolvimento de projetos. Serão escolhidos 10 projetos, que podem ser séries de TV, séries de animação e produtos cinematográficos dos gêneros ficção, documentário e animação.

Para concorrer é necessário ser pessoa jurídica, registrada na Ancine, sediada em São Paulo e com pelo menos um longa metragem produzido. Os roteiristas e diretores concorrentes terão que residir em São Paulo há pelo menos 2 anos.

Cada projeto receberá 70 mil reais para o desenvolvimento do roteiro, bíblia (se for o caso), plano de produção e filmagem, análise técnica completa, comprovante de registro de captação na Ancine e planejamento de marketing e distribuição.

As inscrições irão até 29 de março e terá que ser entregue pessoalmente no Ecine.

Todos os editais estão disponíveis no site da Secretaria Municipal de Cultura.

Na minha opinião, edital para desenvolvimento de projetos deveria ser, ou pelo menos ter a opção de ser, para roteiristas, pessoas físicas, e o objetivo, a produção de um roteiro para que aí sim o roteirista participe de pitchings com produtores e diretores.