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Quero escrever como o Lauro

8 jun

Um protagonista que não sabe-se exatamente quem é, se é bom, se é mau. Uma mocinha bandida, misteriosa. Personagens que vão mostrando-se aos poucos, despindo-se de suas camadas. E tridimensionais, todos são capazes de qualquer coisa. Uma narrativa montada de forma diferente, em blocos, tudo muito trabalhado. Diálogos sofisticados sim!

Esse ínicio de texto serve para falar de Sopranos,de Mad Men, de Boardwalk Empire, de Dexter, Carnivale… Mas não, estou falando de Máscaras, a polêmica novela de Lauro César Muniz. Chama de desastre, de horrível, e o próprio Lauro se culpa pela baixa audiência. Para mim o grande equívoco de Máscaras é o de estar no gênero errado e no lugar errado. Só isso.

Eu sou uma roteirista de séries e um dos meus grandes sonhos, não gosto muito desse termo, mas enfim, que seja, é o de escrever uma série dramática, pesada, com assuntos que ninguém toca, com personagens que podem ser tudo, menos maniqueístas e com diálogos que choquem os mais sensíveis pelo realismo. Eu escrevo um projeto assim, há um ano e meio, sim, esse tempo todo. O que eu quero com ele? Levar a uma produtora e ela oferecer a uma emissora, fechada, uma emissora muito específica, porque se não for lá, acho que não será em lugar nenhum.

Aí é que está. Máscaras é sofisticada demais para que hoje, em 2012, seja contada numa novela. A frase que vem depois dessa, já quase automática, é que Máscaras não é para todos. Eu não concordo com essa afirmação e na próxima semana tratarei desse assunto aqui.

Eu não tenho uma cultura de novela, não é meu gênero favorito e na época do Sassá Mutema, eu tinha 6 anos, ou seja, não tenho nem idade para falar sobre o grande produto dramaturgico brasileiro e nem sobre as grandes novelas do Lauro. Agora, eu posso falar sobre um bom texto. Eu assisto à Máscaras, quer dizer, eu deixo a TV ligada enquanto trabalho, mas volta e meio o texto me faz olhar para a tela. A grandiosidade o diferencial do Lauro como autor me chama, por mais desatenta que eu esteja. E eu, jovem roteirista, queria escrever exatamente aquilo, escrever igual ao Lauro César Muniz. Queria ter construído aqueles personagens, aquela trama, ter pensado em tudo aquilo. Mas tenho plena consciência que seria para uma TV paga, uma bem específica.

Então se há um erro em Máscaras, é esse, estar no gênero errado e no lugar errado. Só isso e mais nada. E Lauro César Muniz é o maior autor brasileiro.

 

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Os degraus que levam ao sonho

16 maio

 

Em 2012, ele conseguir alcançar o sonho de muitos que desejam entrar para o restrito e disputado mercado da dramaturgia: cursar a Oficina de Autores da TV Globo, sonho de 10 entre 10 aspirantes a roteirista. Hoje, aos 34 anos e já com uma novela de sucesso no curricullum, a releitura de “O Astro”, o carioca Vítor de Oliveira é uma das novas promessas e apostas nesta renovação de autores que têm acontecido nos últimos anos na teledramaturgia brasileira. Antes de alcançar o posto, Vitor batalhou em outras profissões: foi funcionário público e deu aulas numa faculdade de Letras. ” Na verdade, sempre tive essa vontade, mas não imaginava que isso fosse acontecer pois venho de uma família de classe média baixa e fui criado no interior da cidade de Petrópolis. A Rede Globo de Televisão sempre foi um sonho muito distante”, confessa.

Ele conta que o caminho para chegar até lá foi de muito trabalho, estudo, persistência e dedicação e que as coisas só aconteceram depois dele ter participado de um curso de roteiro de seriados, ministrado pelo roteirista da Grande Família, Max Mallmann, que foi o responsável pela sua indicação à oficina, na qual ele venceu mais de 500 candidatos durante a seleção. Nesta entrevista exclusiva, Vitor fala dentre outras coisas, sobre os seus ídolos na profissão, sonhos e principalmente sobre a importância do trabalho de um colaborador. “Cada um cria seu próprio caminho na profissão”.

André – Como e quando você descobriu sua vocação para escrever?
Vitor – Não teve um momento específico. Sempre fui noveleiro. Como sou filho único, a televisão era minha babá eletrônica e, desde que me entendo por gente, escrevia novelinhas em meus cadernos baseadas nas novelas a que assistia e colocava minha família e meus amigos como os personagens.
A – Você se inspira (ou) no trabalho de alguém no início da sua carreira? Quem são seus ídolos?
V – Claro! O próprio Tide, Alcides Nogueira, é e sempre será uma grande inspiração pra mim. Além dele, sou totalmente aficcionado pelas novelas e pelo estilo de Gilberto Braga. Quando crescer quero ser igual a esses dois.

A – O colaborador, muitas vezes, não tem o mesmo reconhecimento dado ao titular. Até que ponto o colaborador tem importância numa obra?
V – O bom colaborador precisa ter em mente que, como o próprio nome sugere, está colaborando, está ajudando a contar uma história criada por outra pessoa. Claro que temos nosso estilo pessoal e muitas vezes somos escolhidos pra trabalhar com determinado autor graças à afinidade de estilos, mas a idéia é tentar se manter o mais fiel possível ao estilo do autor titular, que foi quem concebeu a obra. O objetivo principal é “ATENDER A ENCOMENDA” dada pelo autor e isso implica em cumprir religiosamente o prazo de entrega das cenas e seguir o que manda a escaleta, ou seja, somar na equipe, facilitando o trabalho do autor e não o contrário.
Quanto à questão da importância, claro que o maior reconhecimento TEM que ser dado para o autor titular, afinal a história é dele e isso faz parte da hierarquia natural da profissão. Mas devo dizer que Tide e Geraldo foram generosíssimos comigo e com Tarcísio em “O Astro”, sempre valorizando e dando crédito ao nosso trabalho. Enfim, o bom colaborador não deve perder de vista a expressão “ATENDER A ENCOMENDA”. Isso é praticamente um mantra pra nós…rs!

A – Como você tornou-se um colaborador e quais as dicas que você dá para quem deseja seguir o mesmo caminho? Como é a rotina de um colaborador?
V – Me tornei colaborador quando fui um dos selecionados para fazer parte da Oficina de Autores da Globo em 2010 e fui um dos contratados. Falando assim, parece fácil, mas foi um longo caminho até chegar lá. É preciso ler muito, tanto textos teóricos, quanto roteiros de toda a natureza, fazer o máximo de cursos que puder fazer, conhecer pessoas (contatos são importantíssimos) e já ir construindo um nome para ter visibilidade, o que implica em, antes de se aventurar na TV, escrever peças ou curtas ou até mesmo vídeos para internet, livros, etc, ou seja, dizer para o mundo: EU EXISTO! (risos). No meu caso, o blog me deu muita visibilidade, mas cada um cria o seu caminho.

A – Fale um pouco sobre o surgimento do blog , o www.euprefiromelao.blogspot.com , e, agora, do livro?
V – O blog surgiu de maneira super despretensiosa. Como mantinha um blog de cinema, sentia falta de também falar sobre minha outra paixão: a teledramaturgia. Criei o blog pensando que só seria acessado por pessoas conhecidas e noveleiros de carteirinha, mas aos poucos foi ganhando cada vez mais público e mais prestígio. Uma loucura! O Tide não gosta que eu fale, mas também devo muito isso a ele, que foi meu primeiro entrevistado, o que deu o selo de qualidade ao blog. O convite do livro surgiu do meu amigo Rodrigo, com quem me formei na faculdade e que estava criando sua própria editora. Ele achou bacana a ideia de selecionar os melhores textos do blog e eternizá-los em um livro. Em suma, o melão só me deu alegrias, tanto o blog quanto o livro.

A – O Astro foi sua primeira experiência na TV numa obra que fez sucesso no passado. Como foi para você trabalhar nesta releitura da trama?
V – Não poderia desejar estreia melhor! Imagina, em meu primeiro trabalho, revisitar a obra de ninguém menos que Janete Clair, ser o colaborador desse pessoa fantástica que é o Tide. Geraldo também é um gentleman e Tarcísio um companheiro de trabalho incrível. Foi só alegria desde o início. Além disso, você pode imaginar minha emoção ao assistir na Tv falas criadas por mim sendo ditas por pessoas como Regina Duarte, Rosamaria Murtinho e tantas outras pessoas que sempre povoavam meu imaginário. Enfim, poderia desejar mais?

A – É claro que todo dramaturgo que trabalha como colaborador sonha um dia em escrever suas próprias obras. Você tem projetos nesta área? Como você vê a renovação no mercado, já que cada vez mais tem surgido novas apostas na TV.
V – Sim, tenho projetos e espero um dia também escrever minhas próprias obras, mas não quero queimar etapas. Sei que minha carreira está no início e preciso pegar o máximo de experiência que puder como colaborador, aprendendo cada vez mais com os grandes mestres, para quando chegar a hora de meu vôo solo, que ele não seja turbulento. Vejo a renovação como algo muito positivo, pois tudo é muito pensado e sempre quando algum autor novo estreia, tem a supervisão de um autor experiente. Acho muito bom, pois revitaliza a dá fôlego ao gênero. É sempre muito boa a troca entre gerações. Aprendemos muito com os mestres, mas também temos muito a oferecer.

A – TV, Cinema e Teatro são mídias completamente diferentes, mas que lidam com a ficção. Qual a diferença ou marca que você acha que deve ser imprimida à cada uma delas?
V – Acho que cinema é mais imagem. O espectador é muito mais atento e a história quase sempre depende da concepção do diretor. Teatro e televisão são muito mais verbais, sendo que, no teatro, depende muito mais do ator. Tanto em cinema quanto em teatro, o espectador sai de sua casa e paga pra ver aquilo que ele deseja.
Já em televisão, o autor precisa ter em mente que está entrando na Já em televisão, o autor precisa ter em mente que está entrando na casa das pessoas e a história precisa agradar tanto ao adolescente de São Paulo quanto à dona de casa de Roraima. As pessoas tendem a dizer que é muito mais fácil escrever pra televisão, mas é um baita desafio, pois ao contrário de cinema e teatro, a tv compete com tudo à sua volta: o jantar que precisa ser feito, o computador que está ligado, alguém que chega, alguém que sai… O autor tem que ser muito fera pra driblar todos esses ruídos e prender a atenção do espectador.

A – Por fim, deixo uma pergunta em aberto para que você possa se manifestar livremente sobre qualquer assunto que deixei de mencionar.
V – Acho que não faltou nada. Todas as suas perguntas foram ótimas e abrangentes. Só faltou dizer que desejo muito boa sorte e sucesso a todos, aproveitem bastante a oportunidade de estar com o Tide que, além de um grande mestre, é uma das melhores pessoas que já conheci: generoso, delicado, gentil, engraçado,enfim, tudo de bom. Quem me dera estar aí com vocês. Se morasse em Sampa, com certeza faria uma visita…rs!* Sorte e sucesso pra todos! Abração.

 

Por André Luís Cia.

*Vitor refere-se ao curso de Teledramaturgia ofertado pela SP- Escola de Teatro e ministrado por Alcides Nogueira, em maio de 2012, do qual Tatiane de Mello e André Luís Cia tem a honra de participar.